Ex-soldado detalha assassinato de casal militante

Testemunha conta à Comissão da Verdade paulista como Catarina Helena e João Antonio Abi-Eçab foram torturados e mortos por comandante em 1968

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2013 | 02h09

Em depoimento prestado ontem à Comissão Estadual da Verdade, o ex-soldado do Exército Valdemar Martins de Oliveira apontou, pela primeira vez, o nome do oficial que, de acordo com ele, executou o casal de militantes de esquerda Catarina Helena e João Antonio Santos Abi-Eçab em 1968.

O ex-soldado disse que, após serem torturados, os dois foram baleados à queima-roupa pelo capitão Freddie Perdigão Pereira, na época agente do Centro de Informações do Exército, no Rio.

Militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), o casal foi detido no Rio, em operação comandada por Pereira, no dia 8 de novembro de 1968. Suspeitava-se que os dois haviam participado da execução de Charles Chandler, capitão do exército dos EUA, ocorrida um mês antes em São Paulo. Levados para uma propriedade rural nos arredores de São João do Meriti, os dois foram torturados por horas, até desfalecerem, segundo o relato do ex-soldado: "Aí, o comandante chegou perto dele e disse: 'Esse aí não serve pra mais nada'. Então abaixou, ficou quase de joelhos e deu um tiro em cada um".

A execução aconteceu diante de Oliveira e foi o motivo pelo qual pediu para deixar o trabalho na área de repressão política do Exército, sob o comando de Pereira. Desde então passou a ter problemas com a corporação e oficialmente é dado como desertor. Ele reivindica hoje uma pensão como militar da reserva.

Essa não foi a primeira vez que o ex-militar falou sobre o episódio. Em 2001, em entrevista ao jornalista Caco Barcelos, da TV Globo, desmentiu a versão oficial de que o casal fora vítima de um acidente de automóvel.

A revelação provocou a exumação do cadáver de Catarina. O laudo da nova perícia sobre a causa da morte comprovou que ela levou um tiro nas costas. Ontem, porém, foi a primeira vez que o ex-soldado citou o nome do comandante: tratava-se, disse ele, de Freddie Perdigão Pereira, que morreu em 1996 em decorrência de uma operação no apêndice. O ex-soldado disse que não o havia citado antes devido a "ameaças" que recebeu de antigos agentes do serviço de repressão.

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