Ex-governador rechaça acusação da defesa de Talvane

Réus no julgamento do assassinato de Ceci Cunha disseram que Manoel Barros teria razões para se vingar da deputada

TIAGO DÉCIMO, ENVIADO ESPECIAL / MACEIÓ, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2012 | 03h04

Citado pela defesa dos acusados de planejar e executar o assassinato da deputada alagoana Ceci Cunha e de três familiares dela em 16 de dezembro de 1998, como alguém que teria motivos para querer a morte da parlamentar, o ex-governador alagoano Manoel Gomes de Barros classificou o argumento como "absurdo" e "desesperado". Ontem foi o terceiro dia de julgamento. A expectativa é que a sentença seja anunciada hoje.

De acordo com depoimentos de acusados, entre eles o ex-deputado Talvane Albuquerque Neto, apontado pelo Ministério Público Federal como o mandante da chacina, Barros teria ficado irritado com Ceci por ela desistir de ser vice na chapa em que ele tentava a reeleição. Além disso, conforme os acusados, ele teria emprestado R$ 2 milhões para a deputada, que não teria devolvido o valor após a desistência.

"Essa história é tão absurda que não tenho como comentar. É uma tentativa desse louco de desviar o foco dele", afirmou Barros. Segundo ele, a desistência de Ceci da candidatura a vice foi orientada por ele. "Estávamos com problemas na chapa, com poucos nomes na bancada, por isso a orientei a voltar a ser candidata a deputada. Não haveria motivo para eu ficar irritado", disse. Ele também negou o empréstimo. "Isso nunca existiu. Se ele quer me acusar, que mostre provas. Ele teve 13 anos para isso e agora vem com essa história."

O ex-governador voltou a ser citado ontem na apresentação dos argumentos finais da defesa de Talvane. "A pergunta que tem de ser feita é: por que nunca se falou do ex-governador Manoel de Barros ou de outros parlamentares na investigação?", argumentou Welton Roberto. Ele também alegou que a defesa não apresentaria provas da participação de Barros ou de outros possíveis envolvidos no crime porque não há a intenção de incriminar outras pessoas.

Argumentação. O julgamento entrou ontem na fase final. Acusação e defesa tiveram três horas cada para expor os argumentos ao júri e mais duas horas cada para réplicas e tréplicas.

A acusação, representada pelo procurador Rodrigo Tenório e pelo advogado da família das vítimas, José Fragoso, tentou demonstrar, por meio de telefonemas gravados, a presença dos acusados - Alécio César Alves Vasco, Jadielson Barbosa da Silva, José Alexandre dos Santos e Mendonça Medeiros da Silva - no cenário da chacina.

O rastreamento das chamadas teria mostrado que os acusados seguiram Ceci desde a saída dela do fórum, onde recebeu a diplomação como deputada até a casa onde ocorreu a chacina. Além disso, depois do crime, os acusados teriam trocado outros telefonemas até o local onde foi incendiado um Fiat Uno usado na fuga dos atiradores. Toda a movimentação teria sido acompanhada, por telefone, por Talvane.

"É difícil reunir provas contra o autor intelectual de um crime, mas em 17 anos de trabalho não conheço processo que grite o nome do acusado como este. O processo grita o nome de Talvane Albuquerque", disse Fragoso.

Já a defesa usou depoimentos colhidos na fase inicial da investigação e reportagens da época do crime para indicar que havia outros suspeitos - como o ex-governador -, mas que outras teses nunca foram levadas adiante pela polícia ou pelo Ministério Público. "O processo sussurra vários nomes. Houve uma armação para incriminar o deputado. O processo está recheado de mentiras e dúvidas. E, na dúvida, os réus são absolvidos", alegou Roberto.

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