Ex-diretor da Petrobrás criou consultoria dois dias antes de deixar cargo

Renato Duque, que segundo Paulo Roberto Costa assumiu a diretoria de Engenharia e Serviços da estatal e intermediou propinas ao PT, atende clientes com contratos com a petrolífera

Fabio Fabrini e Andreza Matais , O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2014 | 05h00

Brasília - Acusado de receber propina na Petrobrás, em esquema que envolveria repasses ao PT, o ex-diretor de Engenharia e Serviços da companhia Renato de Souza Duque constituiu, dois dias antes de deixar o cargo, uma empresa que presta consultoria de negócios para fornecedores da estatal. 

A 3DTM Consultoria e Participações, com sede no Rio de Janeiro, foi registrada em 25 de abril de 2012 e, de lá para cá, atua nas áreas naval, de logística e de perfuração para clientes que firmaram contratos com a petrolífera. "Quando você sai da empresa, vai fazer o quê? Trabalhar como consultor", justificou o ex-diretor ao Estado. 

Indicado ao cargo pelo ex-ministro José Dirceu, condenado e preso por envolvimento no esquema do mensalão, Duque era responsável pelo setor que executa as obras da Petrobrás. Ele assumiu a Diretoria de Engenharia e Serviços em 2003, quando Dirceu ascendeu à Casa Civil no governo Lula, e manteve-se no cargo até 27 de abril de 2012, mesmo dia em que o ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa - delator que o acusa de integrar o esquema de corrupção -, se desligou da estatal. 

Dois dias antes, registrava no Rio o contrato social de sua empresa, formada em parceria com os filhos. Conforme os documentos de constituição, obtidos pelo Estado, o objeto social da 3DTM é a prestação de serviços de representação, assessoria e consultoria nas áreas de energia, petróleo e gás natural, no Brasil e no exterior". Sócio minoritário, com 10% das cotas, o ex-diretor de Serviços da Petrobrás é o administrador e representante da empresa. 

Ao Estado, ele confirmou que a 3DTM presta consultoria de negócios para clientes que incluem fornecedores da estatal. "Tenho contratos com empresas que prestam serviços para a Petrobrás, sim, porque a minha empresa trabalhava no ramo de energia e a Petrobrás é a maior empresa do Brasil nessa área", justificou. Ele se nega, no entanto, a indicar quais são os clientes, alegando que os contratos têm cláusulas de confidencialidade. "Não posso nominar." 

Em depoimento à Justiça Federal, após firmar acordo de delação premiada para obter redução de pena, Paulo Roberto Costa apontou o ex-diretor de Engenharia e Serviços como beneficiário de pagamentos de fornecedores da Petrobrás. Segundo ele, o PT ficava com 3% do valor de contratos. O esquema, afirmou, teria também o envolvimento do tesoureiro do partido, João Vaccari Neto. 

Questionado se Duque recebeu "valores", o delator reagiu: "A resposta é sim". "Dentro da Área de Serviços, tinha o diretor Duque, que foi indicado pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu. E ele tinha essa ligação com o João Vaccari dentro desse processo do PT", afirmou.

Além de Duque, Paulo Roberto apontou o ex-diretor Internacional, Néstor Cerveró, como um dos dirigentes que receberam recursos ilegais. O delator foi preso pela Polícia Federal em março, acusado de desviar recursos de contratos da companhia com empreiteiras. Assim como Duque, também abriu uma empresa de consultoria, a Costa Global, na mesma época em que deixou o cargo. Ele vem colaborando com as investigações, em troca de eventual redução de pena

A empresa de Duque foi aberta inicialmente como D3TM, trocando o nome para 3DTM meses mais tarde. Na mesma época, a consultoria comprou duas salas no Centro do Rio, nas quais se instalou. 

Perguntado sobre o motivo de as fornecedoras da Petrobrás o contratarem, Duque respondeu: "Prefiro acreditar que é por causa do conhecimento que a gente detém de mercado, técnico, gerencial". 

Segundo ele, embora a 3DTM tenha sido constituída antes de ele sair da Petrobrás, a empresa só passou a funcionar meses depois disso, em janeiro de 2013. "Uma coisa é abrir uma empresa, outra coisa é você começar a trabalhar com ela", alegou, dizendo nunca ter intermediado negócios dos clientes privados na estatal.

Em 2012, a Petrobrás não impunha restrições para dirigentes que deixavam seus cargos e se lançavam no mercado de consultorias, embora pudessem sair com influência e informações privilegiadas. Uma legislação federal, que prevê quarentena de seis meses, só entrou em vigor no ano passado.

Dedo-duro. O ex-diretor de Serviços Renato Duque informou nesta quinta que vai acionar Paulo Roberto na Justiça, por crime contra a honra. Segundo ele, uma ação será ajuizada ainda nesta sexta, pois o delator o acusou "falsamente, e sem apresentar provas", de participar de um esquema ilícito envolvendo empreiteiras. 

"Se ele (Paulo Roberto) falou alguma coisa no meu nome, vai ser processado. Não quero saber se ele tem tornozeleira, se ele é dedo-duro, não importa. Ele vai ser processado e vai ter de responder ao que está falando", declarou ao Estado, acrescentando: "Tenho minha consciência tranquila, sei o que fiz e o que não fiz".

Procurado pelo Estado, o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, disse que as declarações podem ter sido um "ato falho" de Paulo Roberto, pois seu cliente deixou o cargo em 2008, antes das supostas irregularidades investigadas na Operação Lava Jato terem ocorrido. 

Segundo o advogado, Cerveró nega qualquer envolvimento no esquema e é necessário ter "cautela" em relação às denúncias, pois elas foram feitas por um Paulo Roberto "sob pressão". 

"A delação não foi espontânea. Ele estava preso, sob a perspectiva de ter a família presa e processada. Na ânsia de voltar para casa, pode ter aumentado suas declarações para satisfazer ao Ministério Público e à magistratura", argumentou, acrescentando que o acordo, nessas condições, é "nulo".

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