Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

EUA viam Marina como ‘dogmática’da área ambiental

Telegramas coletados pelo WikiLeaks mostram satisfação da diplomacia americana com a saída de ex-ministra no governo Lula

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2014 | 06h00

GENEBRA - A diplomacia americana chamou a candidata à Presidência Marina Silva (PSB) de “dogmática” e não disfarçou a satisfação com sua saída do Ministério do Meio Ambiente, em maio de 2008. É o que revela uma série de telegramas do Departamento de Estado americano, coletados pelo grupo WikiLeaks.


Nos documentos, Washington indica que tentou uma aproximação com Marina, em encontros com diplomatas e até convidando a então ministra para uma viagem aos parques naturais dos EUA. Mas não hesitou em alertar que, diante de sua queda, as “oportunidades” de aproximação com o Brasil aumentaram em setores-chave para os americanos, como biotecnologia e transgênicos. 


Marina foi ministra no governo de Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2008. Neste período, seu discurso sobre o desmatamento da Amazônia foi elogiado pela comunidade internacional, inclusive nos documentos internos do governo americano. Mas ela também era vista como obstáculo em certas áreas e sua saída era vista como uma chance de se abrir novas colaborações com Brasília.


Biotecnologia. Num telegrama de 8 de setembro de 2009, um ano depois da saída de Marina do governo, a embaixada dos EUA em Brasília informa o Departamento de Estado em Washington sobre o “potencial de trabalhar de forma mais estreita com o Brasil em biotecnologia”. “Biotecnologia e recursos genéticos são questões que têm dividido os ministérios brasileiros, com a Agricultura apoiando e, até recentemente, o Ministério do Meio Ambiente expressando um ceticismo e cautela.”

Mas, segundo a diplomacia, “a chegada de um ministro do Meio Ambiente mais pragmático apresenta uma oportunidade para o governo dos EUA a encorajar o governo do Brasil a trabalhar de forma mais estreita com os EUA nesses assuntos-chave”. O novo ministro, no caso, seria Carlos Minc. 


Na descrição da candidata, a diplomacia americana deixa claro que ela foi uma pessoa “influente” no governo. Mas que “tomou uma atitude dogmática contra organismos geneticamente modificados”. 

Pragmatismo. Segundo os americanos, “Lula escolheu Minc por seu pragmatismo ao lidar com questões econômicas”. “Desde sua escolha, a embaixada (americana) ouviu relatos que o Ministério do Meio Ambiente será mais pragmático em relação à introdução de novos organismos geneticamente modificados ao Brasil.”


Em seus comentários finais no telegrama, a diplomacia americana comemora. “A oposição quase instintiva aos aspectos de modificação genética da biotecnologia vistos nos dias em que Marina Silva comandava o Ministério do Meio Ambiente parece ter chegado ao seu final.”


Uma semana após sua saída do governo, Marina já era alvo de informe da diplomacia americana para explicar sua queda. “O ritmo lento de seu ministério em aprovar licenças ambientais foi visto como um obstáculo ao PAC do presidente Lula”, dizia telegrama de 19 de maio de 2008, que não deixou de destacar que ela “merece crédito” por causa do combate ao desmatamento. 


A diplomacia americana continuaria a monitorar o impacto de Marina na política brasileira. Num telegrama de 11 de setembro de 2009, a embaixada dos EUA em Brasília apontava como a previsão da entrada de Marina como candidata à Presidência em 2010 estaria forçando a então ministra Dilma Rousseff a ter de se engajar em temas ambientais. “Esse fato político (a entrada de Marina na campanha para 2010) cria pressão sobre Lula e sobre sua candidata do PT, ministra Dilma Rousseff, para polir suas credenciais verdes”, diz o telegrama.

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