'Eu não tolero corrupção', afirma Dilma

A presidente defendeu Lula em entrevista para jornal francês, afirmando que ele abriu uma 'nova etapa' no combate malfeitos no Brasil

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h05

Os desdobramentos do escândalo do mensalão voltaram a repercutir ontem em Paris. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, a presidente Dilma Rousseff defendeu e elogiou seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que ele abriu uma "nova etapa" no combate à corrupção no Brasil. A presidente disse ainda que seu governo "não tolera a corrupção". Em uma frase ambígua, completou: "Não se deve confundir estas investigações e a caça às bruxas próprias aos regimes autoritários e de exceção".

As declarações foram feitas ao jornalista Paulo Paranaguá, do jornal francês. Com ênfase nas relações entre a França e o Brasil, na crise econômica internacional e no crescimento do País, a entrevista recebeu uma página no diário. Em um segundo texto, menor, a reportagem aborda a corrupção. Nele, Dilma diz que Lula foi responsável por uma guinada no combate à corrupção no Brasil. "O Ministério Público é independente, a Polícia Federal investiga, prende e sanciona", diz ela. "E aquele que começou essa nova etapa de governança foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva."

Na mesma resposta, Dilma reitera: "Eu não tolero a corrupção, e meu governo também não. Se há suspeitas fundadas, a pessoa deve partir". Então, usou de uma frase enigmática, sem explicar seu sentido: "Claro, não se deve confundir essas investigações e a caça às bruxas próprias aos regimes autoritários e de exceção".

Ainda falando sobre o caso brasileiro, a presidente disse que, "graças às novas tecnologias, o Brasil criou um 'Portal da Transparência', que registra todas as despesas públicas no mesmo dia". Outro exemplo citado por Dilma foi que, "para ser candidato a uma eleição, os brasileiros devem se conformar à Lei da Ficha Limpa e não podem ter sido condenados".

Em um trecho anterior da entrevista, Dilma falou genericamente sobre o combate à corrupção, alegando que esta é uma causa mundial. "Este problema atinge todos os países. Não são as pessoas que devem ser virtuosas, mas as instituições. A sociedade deve ter acesso a todos os dados governamentais", pregou, enfatizando: "Todos os que se valem de fundos públicos devem prestar contas. Senão, a corrupção se multiplica. É preciso ser voluntarista".

Questionada pela reportagem se será candidata à reeleição em 2014, Dilma não quis confirmar. "Eu tenho dois anos de governo intensos à minha frente. Não é o momento de pensar nisso. Seria colocar os carros à frente dos bois."

No mesmo dia em que Dilma concedeu a entrevista, na quarta-feira à tarde, Lula discursou em um fórum coorganizado por seu instituto. No pronunciamento, não descartou disputar uma eleição. "Espero que, se um dia eu voltar a ser candidato, eu tenha votos deles (de empresários), que não tive em outras eleições", disse.

Dilma e Lula estiveram em Paris simultaneamente, a primeira para uma visita de Estado e o segundo para uma conferência sobre progresso social. Os dois se reuniram uma única vez, na segunda-feira, para um almoço. Um outro encontro aconteceria na noite de terça-feira, quando o Palácio do Eliseu ofereceu um jantar de gala aos dois, com a participação de líderes políticos, diplomáticos, empresariais e de jornalistas. Já pressionado pelas novas denúncias e evitando a imprensa, o ex-presidente alegou desconforto na garganta e não participou.

Na única entrevista que concedeu em Paris, Dilma também havia defendido Lula tachando as denúncias de "lamentáveis".

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