Estudo revela prática de torturas desde 64, antes mesmo do A1-5

Organograma criado por pesquisadora mostra que assessores do presidente atuaram em centros de repressão na ditadura

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2013 | 02h07

A política de extermínio e tortura de adversários políticos da ditadura militar (1964-1985) foi organizada por assessores diretos do presidente da República, oficiais das Forças Armadas que estavam na ponta da pirâmide. Já nos primeiros anos após o golpe de 1964, o regime montou uma série de centros de detenção em unidades do Exército. As informações estão contidas num organograma da repressão e num mapa de centros de detenção apresentados pela Comissão Nacional da Verdade.

Em 1970, início da escalada de assassinatos, os ministros Márcio de Souza Mello (Aeronáutica), Orlando Geisel (Exército) e Adalberto de Barros Nunes (Marinha) encabeçavam um esquema que tinha o Centro de Operações de Defesa Interna (Codi), comandado pelo general Siseno Sarmento, como polo irradiador das ações e operações.

Logo abaixo dos ministérios militares aparecem os centros de inteligência das três forças - CISA, CIE (atual CIEx) e Cenimar -, operados respectivamente pelo brigadeiro Carlos Afonso Dellamora, pelo general Milton Tavares e pelo capitão de mar e guerra Fernando Pessoa Rocha Paranhos.

Oficialmente, 361 pessoas foram mortas pela ditadura. Pela conta dos grupos de direitos humanos, o número chega a 457.

Mapa. O organograma da repressão e o mapa dos centros de tortura e detenção foram elaborados pela pesquisadora Heloísa Starling, da Universidade Federal de Minas Gerais. O estudo ressalta que as torturas já ocorriam no período considerado menos violento da ditadura, que vai de 1964 a 1968, ano da assinatura do AI-5, que aumentou a repressão no País.

Em 1964, o general Ernesto Geisel, que mais tarde se tornaria presidente, foi encarregado de apresentar um relatório sobre denúncias de tortura em Pernambuco. Para Heloísa Starling, Geisel escondeu que a tortura já era uma prática em unidades do Exército. Ela avalia que o relatório teria dado início ao uso da tortura como instrumento de interrogatório. De acordo com o estudo da Comissão Nacional da Verdade, a tortura existiu desde o golpe, em 1964.

No Estado de São Paulo, a pesquisa cita a Base Aérea de Cumbica, o Departamento de Ordem Política e Social(Dops), o quartel do 2.º Exército e Navio-Prisão Raul Soares como centros de tortura.

Ao apresentar o estudo, a comissão ouviu críticas. Iara Xavier, representante das famílias de mortos pela ditadura, disse que não viu avanço na investigação e pediu mais foco na questão dos desaparecidos. "Não me senti esclarecida sobre o que está sendo feito", disse.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) disse que irá pedir esclarecimentos ao Ministério da Defesa sobre a "mentira" da Marinha e a falta de acesso a documentos da época. "A mentira é inaceitável para quem quer construir uma ordem democrática", disse o parlamentar.

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