Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters
Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters

Estudo associa polarização a ‘notícias distorcidas’

Apoiadores de Bolsonaro compartilham mais ‘junknews’ e militantes de Haddad publicam maior volume, diz pesquisa

Beatriz Bulla, correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2018 | 05h00

Apoiadores do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, são os que compartilham maior número de fontes de informação falsa ou de baixa qualidade - as "junk news" ou notícias distorcidas - relacionada às eleições no Twitter, rede social em que ele tem o maior engajamento político. Do outro lado, os apoiadores da candidatura do PT são os que publicam maior volume de informação falsa, ainda que concentrada em menor quantidade de fontes. Essas são as conclusões de um estudo do Instituto para Internet de Oxford, obtido pelo Estado, que será divulgado nesta sexta-feira, 5 

A pesquisa analisa o compartilhamento de notícias de conteúdo político no Twitter no cenário pré-eleitoral brasileiro. As fontes classificadas como “junk news” na pesquisa são publicações com ao menos três dos cinco critérios estabelecidos pelos pesquisadores, que incluem falta de profissionalismo; estilo emocional; problema de credibilidade e informação falsa; enviesamento ideológico; ou falsificação de marcas e fontes para deixar conteúdo produzido com aparência de verdadeiro.

Os estudiosos analisaram as "junk news", que tiram de contexto um assunto para transmitir outra mensagem. Isso inclui não só notícias falsas, mas publicações excessivamente polarizadas com intuito de confundir o leitor, por exemplo, sem indicar a autoria.

Do total do espectro de fontes de junk news monitorado, 81% são compartilhadas por apoiadores de Bolsonaro. Atrás vêm os apoiadores da candidatura do PT, que usaram 54% das fontes, de Geraldo Alckmin (24%), do PSDB, e Ciro Gomes (8%), do PDT

Com relação ao volume de compartilhamento, os apoiadores do PT respondem por 65% do total do conteúdo de baixa qualidade. Em seguida estão os apoiadores de Bolsonaro, com 27%. Na pesquisa, hashtags ligadas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao candidato Fernando Haddad são contabilizadas como apoiadores do PT, pois a análise foi feita antes da negativa final do registro de Lula como candidato e a oficialização de Haddad na cabeça da chapa.

A pesquisa analisou tuítes com hashtags vinculadas às eleições entre 19 e 28 de agosto. 

"Esse tipo de notícia de baixa qualidade se espalha rapidamente na rede social, não necessariamente pela atividade de robôs, mas porque é produzida para causar reações emocionais no público - como raiva - o que causa maior compartilhamento", disse uma das autoras do estudo, Nahema Marchal.

No total de publicações no Twitter, o PT reúne a maior parcela de tuítes de alta frequência (47% do total). As contas de alta frequência, com muitas publicações ao dia, são consideradas um indício de uso de robôs para amplificar o conteúdo. "Apesar de ter mais contas de alta frequência no lado Lula e Haddad, quem está conseguindo capturar a discussão no Twitter é o Bolsonaro", diz Caio Machado, também autor do estudo. As publicações relacionadas ao candidato responderam por 45% do total de publicações políticas no período analisado, perdendo para todos os demais: Lula/Haddad (34%). 

Análise

“De um lado, apoiadores do PT estão martelando mais vezes as mesmas fontes. Do outro, apoiadores do Bolsonaro compartilham notícias falsas em maior amplitude e replicam quase todas as fontes identificadas como falsas”, explica um dos autores do estudo, o brasileiro Caio Machado. Ele integra o Comprop, o projeto de pesquisa em propaganda computacional que investiga propaganda eleitoral usando algoritmos e automação, com a base em Oxford.

O coordenador do instituto de Oxford, Philip Howard, assina o trabalho junto com outros 5 pesquisadores vinculados à universidade. O time tem três brasileiros. Howard já conduziu pesquisas sobre o uso de robôs nas eleições americanas de 2016 e foi um dos especialistas ouvidos pelo Senado americano nas investigações sobre interferência externa na disputa presidencial dos EUA.

“O conteúdo polarizado baseado na retórica extremada e populista se tornou uma receita de sucesso nas eleições da Europa, Estados Unidos e América Latina. Esse tipo de notícia de baixa qualidade se espalha rapidamente na rede social, não necessariamente pela atividade de robôs, mas porque é produzida para causa reações emocionais no público – como raiva – o que causa maior compartilhamento”, afirmou uma das autoras do estudo, Nahema Marchal.

No total de publicações no Twitter – não só as consideradas ruins –, o PT reúne a maior parcela de tuítes de alta frequência (47% do total). As contas de alta frequência, com muitas publicações ao dia, são consideradas um indício de automação – ou seja, uso de robôs para amplificar o conteúdo. “Apesar de ter mais contas de alta frequência no lado de Lula e Haddad, quem está conseguindo capturar a discussão no Twitter é o Bolsonaro”, afirma Machado.

O candidato que recebe maior engajamento no Twitter é Bolsonaro. As publicações relacionadas ao candidato responderam por 45% do total de publicações políticas no período analisado, perdendo para todos os demais: Lula/Haddad (34%), Ciro (5%), Alckmin (4%), Marina Silva (4%), Guilherme Boulos (2%), Henrique Meirelles (1%), “geral” (4%).

Plataforma

As notícias de baixa qualidade são minoria no Twitter. Segundo a pesquisa, só 2% dos compartilhamentos na rede social são de publicações assim. A explicação, segundo os pesquisadores, está no perfil da rede social. Metade dos compartilhamentos no Twitter é de conteúdo profissional - de jornalismo profissional ou publicações dos próprios partidos políticos.  “Dá para perceber que o Twitter vira um instrumento de divulgação do próprio partido, mas isso não quer dizer que em outras plataformas não haja notícia falsa”, afirmou Machado. 

“Uma parte mais experiente da população brasileira usa o Twitter, enquanto plataformas de mensagens privadas como WhatsApp e Facebook Messenger são mais populares, oferecendo novos caminhos para a disseminação da desinformação. Os brasileiros não estão imunes a tais ameaças”, afirmou Nahema. Segundo ela, os próximos estudos sobre o Brasil podem contemplar as outras plataformas em razão desse indicativo.

Os pesquisadores destacam ainda que a desinformação pode ter migrado para outros canais onde é mais difícil identificar o responsável. “É um indicador que conteúdo conspiratório pode estar buscando outras vias. A publicidade e força das autoridades deve estar empurrando o conteúdo para cima das conversas mais privadas”, afirma Machado, “Plataformas públicas como o Twitter costumavam ser um veículo conhecido para a circulação de desinformação, mas atualmente conversas privadas estão surgindo como um novo terreno fértil para notícias falsas virais”, afirmou Nahema.

Conexão

O estudo analisou também a conexão entre compartilhamento de conteúdo político de baixa qualidade entre apoiadores de diferentes candidatos. Entre as conclusões está a falta de diálogo entre as duas pontas: apoiadores do PT e de Bolsonaro. O índice medido através de uma fórmula indicada no estudo aponta que a pontuação de 0 a 1 indica pouca conexão. Acima de 1, a conexão é mais frequente. 

Apoiadores de Alckmin e Bolsonaro possuem a maior conexão no Twitter, com índice de 4. Já entre PT e Bolsonaro, o índice é equivalente a zero. Segundo a publicação, o resultado pode ser atribuído ao fato de “ambos os candidatos (Bolsonaro e Alckmin) se apresentarem como candidatos anti-PT e seus seguidores majoritariamente rejeitam candidatos de esquerda”. 

Procurado, o Twitter, disse que não iria se manifestar antes da publicação oficial do estudo.

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