Estudantes e sem-terra invadem Instituto Lula

Ex-presidente ligou para ministro da reforma agrária, que reagiu rápido e despachou auxiliar para tentar contornar impasse

ROLDÃO ARRUDA , DAIENE CARDOSO , AGÊNCIA ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2013 | 02h10

Um grupo que reunia estudantes, sem-terra e assentados da reforma agrária invadiu na manhã de ontem a sede do Instituto Lula, no bairro do Ipiranga, zona sul paulistana. À noite, seus dirigentes decidiram continuar a ocupação. O plano é deixar a sede hoje ao meio-dia.

O objetivo era conseguir a ajuda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para evitar o despejo das 68 famílias do assentamento Milton Santos, em Americana, no interior do São Paulo. Segundo decisão da Justiça Federal, a terra está numa área particular e deve ser desocupada.

O diretor-presidente do Instituto, Paulo Okamotto, disse que o ex-presidente ficou "chateado" após ser informado da invasão: "Ficou chateado, porque o pessoal invadiu e ele teve de mudar de agenda, mas faz parte".

Lula, responsável pela criação do assentamento, em 2005, também teria manifestado solidariedade às famílias. Okamotto, porém, criticou a invasão. "O que eu não posso concordar é com os métodos que estão usando. É inadequado. Não pediram sequer uma audiência", afirmou.

Os 25 funcionários do instituto foram impedidos de entrar no edifício. Uma parte foi dispensada e outra seguiu trabalhando no segundo prédio que abriga a entidade, no mesmo quarteirão.

Reação. Segundo o ex-ministro Luiz Dulci, que é diretor do instituto, Lula entrou em contato com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, para informá-lo sobre a invasão. A reação foi rápida: à tarde, Vargas determinou ao presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Carlos Guedes, que viajasse para São Paulo para tratar do caso.

Guedes deve ir hoje cedo à sede da Justiça Federal em Piracicaba, pedir mais prazo para a reintegração de posse da área, prevista para o dia 4. À tarde pretende se reunir com autoridades do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região, em São Paulo.

Em nota, o ministério informou que Guedes poderá receber os representantes das famílias, hoje, em São Paulo, desde que desocupem o Instituto Lula. Segundo a nota, o governo já tomou as providências legais para provar que o assentamento foi instalado em área pública.

O movimento de protesto dos assentados não é novo. Começou no dia 15, quando as famílias ocuparam a sede regional do Incra em São Paulo. Ontem, um grupo dissidente decidiu ir além, invadindo a sede do Instituto Lula.

Os invasores estão ligados à Intersindical, dissidência da Central Única dos Trabalhadores (CUT) vinculada ao PSOL. Logo após a ação, o Movimento dos Sem Terra (MST), próximo ao PT e à CUT, divulgou nota informando que não participava da invasão do instituto, que serve como sede das articulações políticas do ex-presidente.

Ação política. Mais da metade dos ocupantes do edifício onde funciona o instituto eram estudantes e sindicalistas ligados à Intersindical. No primeiro momento, seus dirigentes afirmaram que a ação não tinha cunho político. "Isso é uma atitude de desespero. Viemos a um companheiro (Lula) pedir ajuda", afirmou Paulo Albuquerque, porta-voz do grupo.

N o início da noite, porém, logo após a decisão de que a ocupação continuaria, o advogado do grupo, Vandré Paladini Ferreira, admitiu o caráter político: "É óbvio que é uma ação política, mas não é uma ação partidária".

A ação ocorre no momento em que o ex-presidente da República tem sido criticado por estar interferindo politicamente no governo da presidente Dilma Rousseff. Um exemplo disso foi a declaração feita por seus assessores, na semana passada, de que passará a se dedicar à consolidação da base política do governo.

À tarde, três pessoas, solidários com os assentados, se acorrentaram na porta do escritório da Presidência da República, na Avenida Paulista. / COLABOROU ISADORA PERON

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