Estreantes levam ‘voz das ruas’ para a Câmara Municipal

Estreantes levam ‘voz das ruas’ para a Câmara Municipal

Jovens ativistas se elegem vereadores impulsionados pela atuação em movimentos que reuniram multidões contra e pró Dilma Rousseff

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2016 | 05h00

Fernando Holiday (DEM), Janaina Lima (Novo) e Sâmia Bomfim (PSOL) vão deixar os carros de som para fazer política, a partir do ano que vem, no plenário da Câmara Municipal. Eleitos anteontem, os três reúnem no currículo um histórico recente, mas vitorioso, de engajamento popular, oriundo da onda de protestos que invadiu o País após junho de 2013.

Sâmia mostrou a cara já naquele ano, reforçando o coro contra o aumento da passagem de ônibus. Holiday e Janaina surgiram dois anos depois para pedir o impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff.

Em comum, os três têm a juventude e o discurso da renovação. Aos 20 anos, Holiday será o vereador mais jovem da Casa e, provavelmente, o mais polêmico. Negro e homossexual assumido, declara-se contra as cotas raciais nas universidades e não fez nenhuma questão de levantar a bandeira LGBT. “Alguns me consideram um traidor da causa, mas defendo o que penso e proponho o debate, não o senso comum e a cultura da vitimização. Há estudos que mostram que as cotas aumentam a segregação”, afirma.

Eleito com 48 mil votos, Holiday é um fenômeno das redes sociais. Dirigente do Movimento Brasil Livre (MBL), que organizou parte das manifestações anti-Dilma na Avenida Paulista, o ativista deixa bem claro de que lado ficará quando assumir sua cadeira na Câmara. “Certamente não será o lado do PSOL, partido que apoia ditaduras e bandidos, como os black blocs.”

Filiado ao DEM, aliado do prefeito eleito João Doria (PSDB), Holiday vai compor a base de sustentação do governo a partir de 2017. Mas o novo parlamentar rejeita o rótulo de representante da extrema direita. “Eu apoio o casamento gay. Sou liberal.”

Foto. Reunidos na Câmara a pedido do Estado, Holiday e Sâmia posaram ontem para a primeira foto no futuro local de trabalho. Acompanhados de Janaina Lima (leia mais nesta página), a dupla manteve a cordialidade. “Nossos embates serão apenas políticos”, antecipa Holiday.

Sâmia levará ao Legislativo a bagagem acumulada em sua luta diária contra o machismo e a cultura do estupro. Após participar dos protestos organizados pelo Movimento Passe Livre (MPL), a paulistana de 27 anos assumiu a bandeira feminista e promete agora lutar pelo desenvolvimento de uma política municipal que acolha a vítima da violência doméstica.

“Meu projeto será aprovar na Câmara a criação de um fundo municipal de combate à violência contra a mulher. Temos de aprimorar as políticas existentes hoje nessa área, mas sei que, para isso, terei de promover um enfrentamento político e ideológico com os demais vereadores”, diz.

Apesar da pouca idade, Sâmia tem o discurso afinado nesse sentido, resultado de sua participação em outros movimentos populares, como a Primavera Feminista, que tomou as ruas contra o governo Michel Temer e pela cassação do agora ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Formada em Letras pela USP, Sâmia afirma ter se surpreendido com o resultado das eleições. “Foi inesperado, reconheço, mas devo isso ao crescimento do PSOL e à busca das pessoas por uma outra alternativa de esquerda”, afirma.

Tanto Sâmia como Holiday terão colegas de partido para os ajudarem a partir de 1.º de janeiro. O vereador Milton Leite (DEM) é um dos mais experientes. Com 107,9 mil votos alcançados anteontem, foi o segundo mais votado deste ano, perdendo apenas para o campeão histórico, Eduardo Suplicy (PT), que somou 301 mil.

Com 16 mil votos, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) teve votação menos expressiva, mas significativa se comparada à de 2012, quando somou apenas 8 mil. Ano que vem, Vespoli e Sâmia serão oposição a Doria.

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