Estratégia dos tucanos depende de mudança de resultados econômicos

Como estratégia, a decisão do PSDB de recorrer ao Plano Real como arma eleitoral tem fôlego relativo. Soa como alternativa oferecida ao País num cenário de descontrole inflacionário - afinal, a vitória contra esse descontrole foi o grande legado da era FHC -, mas para sensibilizar o grande público essa estratégia depende de que esse descontrole realmente exista. E se traduza em custos e na redução de renda.

ANÁLISE: Marco Antonio Teixeira, professor de administração na FGV-SP, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2014 | 02h02

Não é o que se apresenta no horizonte, no momento. Concretamente, iniciativas como a de ontem, no Congresso, tendem a sensibilizar um público que normalmente já apoiaria a candidatura de Aécio Neves.

Mas é um processo que está em construção - e isso tem de ser levado em conta. De início, traz um ganho residual imediato, junto a um público descontente com o governo Dilma, notadamente setores empresariais.

Segundo, coloca a questão inflacionária na agenda eleitoral. E nesta, o legado de Fernando Henrique Cardoso se apresenta como algo que deu certo e foi indispensável para os avanços que se seguiram. Convém lembrar que, como arma eleitoral pós-FHC, esse legado nunca foi realmente testado. Em três campanhas presidenciais seguidas, ele foi deixado de lado duas vezes por José Serra e uma por Geraldo Alckmin.

Não há respostas claras sobre quanto o Plano Real pode, 20 anos depois, ajudar o PSDB na luta para voltar ao Planalto. O que poderemos ter, diferentemente de eleições anteriores, será um embate entre os governo FHC e Dilma - com a inflação e o controle das contas no centro da discussão - e o governo Lula deixado um pouco de lado.

Mas o sucesso tucano não depende só de um descontrole inflacionário. Depende de como conquistas aqueles 54% do eleitorado que têm menos de 28 anos de idade - gente que tinha no máximo oito anos quando o real foi criado. A memória inflacionária para esses eleitores teria de ser trabalhada.

E o tempo é curto. Outras agendas tomarão espaço, daqui até outubro. A começar pela Copa do Mundo, quando o debate econômico ficará um pouco à margem. Quando a disputa eleitoral voltar, em agosto, se a inflação ainda estiver em patamares próximos ao centro da meta, a estratégia do PSDB perde sentido. Por fim, louvar o Plano Real não basta, falta um projeto sobre o Brasil do futuro. O plano em si nada revela sobre uma possível política de longo prazo, industrial, agrícola, e esse desafio tão central, que é o destino das nossas cidades.

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