'Estou comemorando', diz Maluf sobre Jersey

Ex-prefeito afirma que 'nada muda' após decisão que mandou offshores devolverem US$ 22 mi à Prefeitura de São Paulo

Entrevista com

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h04

"Estou comemorando", disse ontem, entre risadas, o ex-prefeito e deputado Paulo Maluf (PP), ao retornar de viagem de cinco dias a Campos do Jordão. Sua euforia se dá em meio ao impacto da sentença da Justiça da Ilha de Jersey, paraíso fiscal britânico, que condenou duas offshores ligadas à sua família. As empresas terão de devolver US$ 22 milhões - ou R$ 46 milhões - aos cofres da Prefeitura de São Paulo. A reação de Maluf é como se o novo revés nada tivesse a ver com ele. O Ministério Público sustenta que os valores movimentados na conta de Jersey tiveram origem em desvios de recursos de uma de suas marcas, a obra da Avenida Água Espraiada, hoje Roberto Marinho, na zona sul da capital.

O que muda na vida do sr.?

Nada. A sentença diz claramente que não sou réu. Confirma o que venho dizendo há anos, mas a gente, quanto mais repete, menos acreditam: não tenho conta na ilha de Jersey. Precisa ler a sentença inteira, são 80 páginas. Eventuais movimentações ocorreram em janeiro e em fevereiro de 1998, é o que diz a sentença, portanto um ano e pouco depois que deixei a Prefeitura. A Água Espraiada foi inaugurada em 1996.

A prefeitura é autora da ação.

Li as declarações do Lembo (Cláudio Lembo, secretário municipal dos Negócios Jurídicos). Estranhei porque ele foi meu secretário de Planejamento. O Kassab (Gilberto Kassab, prefeito) foi secretário do Celso Pitta, meu sucessor. Ele conhece bem. Se alguém tem que me inocentar é a Prefeitura. Sou o prefeito mais bem avaliado na história de São Paulo. Minhas contas foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Município e pela Câmara. A sentença me é claramente favorável, fala em 'talvez', 'pode ser', que 'pagaram depois que o Paulo Maluf saiu (da Prefeitura)'. Estamos em um Estado Democrático de Direito, onde as coisas precisam ser provadas.

Qual a orientação do advogado?

Nenhuma, porque não sou réu. Também acho estranho que a jurisdição diz que, se alguém é responsável por algum fato a ser julgado na Itália, por exemplo, ele será julgado por um tribunal italiano. Se alguém tem que ser julgado por uma obra no Brasil, é a Justiça brasileira que deve julgar, e não um tribunal estrangeiro.

O que o preocupa?

Nada. Recebi mais de 500 ligações, do PT, do PSDB, do PMDB, até de um ministro de Estado, do mais alto nível político. Ele disse: Maluf, sabe por que é tão perseguido? Porque você está vivo'. Eu digo graças a Deus. Fui duas vezes eleito deputado federal mais votado do Brasil. Só não fui na última porque competi com o Tiririca. O meu neto diz: 'Vovô, se o senhor não fosse candidato, eu votava nele'. Ele (Tiririca) representou o protesto de centenas de milhares de brasileiros contra a classe política. Em Brasília tem muita gente boa.

O sr. diz que não tem dinheiro em Jersey e que as offshores não são suas. Por que ressaltou que cabe recurso?

Digo isso porque está na sentença que cabe recurso. Na última linha eles admitem que nem sabem calcular (o valor a ser devolvido a São Paulo).

O PT não fica mal com o apoio que o sr. deu ao prefeito eleito Fernando Haddad?

Evidente que não. Alguns ficaram bravos comigo por causa do apoio ao Haddad, mas ele vai ter apoio do governo Dilma, isso é muito bom para São Paulo. Fosse José Serra o ganhador e ele não teria apoio nenhum do governo federal.

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