Imagem Dora Kramer
Colunista
Dora Kramer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Está tudo ótimo

O texto abaixo é o resumo de uma crônica da americana Dorothy Parker publicada em coletânea organizada e traduzida por Ruy Castro no livro Big loira e outras histórias de Nova York, de 1987. Chama-se Você estava ótimo.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h02

O rapaz de tez pálida acomodou-se lenta e cuidadosamente no sofá e reclinou a cabeça em direção a uma almofada fresca que lhe confortasse a face e a têmpora.

- Aiii - gemeu. - Ai, ai, ai. Aiii.

A jovem de olhos claros, sentada firme e ereta na poltrona, lançou-lhe um sorriso malicioso.

- Não está se sentindo bem hoje?

- Oh, estou ótimo, borbulhante, eu diria. Sabe a que horas eu me levantei? Às quatro da tarde, em ponto. Tentei me levantar antes, mas toda vez que punha a cabeça para fora do travesseiro ela rolava para debaixo da cama.

- Quer um drinque para se sentir melhor?

- Para afogar a ressaca em mais bebida? Não, obrigado, parei de beber, de vez, nem mais uma gota. Diga uma coisa: eu me comportei mal ontem à noite?

- Ontem? Ora, que nada. Todo mundo estava meio alto. Você estava ótimo.

- Alguém reclamou de mim?

- Deus do céu, claro que não. Todo mundo achou você terrivelmente engraçado. Claro, Jim Pierson ficou um pouco brabo com você durante o jantar. Mas conseguiram segurá-lo na cadeira e ele se acalmou.

- Jim queria me bater? O que foi que eu fiz?

- Ora, você não fez nada. Você estava ótimo. Mas sabe como Jim fica quando pensa que alguém está dando em cima de Elinor.

- Eu estava cantando Elinor? - disse ele.

- Claro que não - ela disse - Você estava só brincando. Ela o achou tremendamente divertido. Só parou de rir um pouco quando você despejou as lulas "en su tinta" pelo decote dela.

- E agora, o que vou fazer?

- Ora, ela vai ficar boa. Mande-lhe flores no hospital. Não se preocupe, não foi nada.

- Cometi mais alguma façanha fascinante no jantar?

- Você estava ótimo. Não seja tolo. Todo mundo estava louco por você. O maître ficou um pouco aborrecido porque você não conseguia parar de cantar, mas, no fundo, não se importou. Só disse que a polícia talvez fechasse de novo o restaurante por causa do barulho.

- Quer dizer que eu cantei. Deve ter sido formidável.

- Não se lembra? Uma música atrás da outra. Todo mundo ficou ouvindo. E adorou. Foi só quando você insistiu em cantar qualquer coisa sobre fuzileiros, que as pessoas começaram a fazer psiu, psiu e você insistia em cantá-la de novo. Foi uma maravilha. Tentamos fazer com que parasse e comesse um pouco, mas você nem queria saber.

- Por quê? Eu não estava comendo?

- Toda vez que o garçom vinha servi-lo você lhe devolvia o prato dizendo que ele era seu irmão postiço, trocado no berço da maternidade por uma quadrilha de ciganos e tudo o que você tinha pertencia a ele. O garçom ficou uma onça com você.

- Bem, o que aconteceu depois desse estrondoso sucesso com o garçom?

- Ah, pouca coisa. Você aparentemente discordou do estampado da gravata de um senhor de cabelos brancos, sentado do outro lado da sala, e foi lá lhe pedir satisfações. Mas conseguimos sair com você do restaurante antes que ele ficasse furioso.

- Ah, fomos embora, saí andando?

- Andando! Claro que sim! Você estava perfeitamente bem. Tanto que, quando você tropeçou no meio-fio e caiu sentado, ninguém se importou. Poderia ter acontecido com qualquer um.

A graça da crônica de Parker é a discrepância entre a versão e os fatos. Lembra a narrativa da presidente Dilma Rousseff sobre a situação da economia, que de resto não tem a menor graça.

Escola. Muito melhor a referência de Dilma aos Lusíadas que as metáforas futebolísticas de Lula. Ao menos se aprende algo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.