DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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'Está tudo na paz do Senhor e Paulo Guedes é meu ídolo', diz Onyx

Futuro ministro da Casa Civil corre cinco quilômetros em meia hora e nega divergências com chefe da equipe econômica

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2018 | 11h30
Atualizado 02 Novembro 2018 | 15h18

BRASÍLIA - Com um fone no ouvido e um cronômetro na mão, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), futuro ministro da Casa Civil, saiu nesta quinta-feira, 1º, às 7 horas em ponto de seu apartamento funcional, em Brasília, e, como de hábito, correu cinco quilômetros em 30 minutos. A nomeação do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça ainda não havia sido anunciada oficialmente, mas ele já sabia de tudo.

A dois meses de assumir o gabinete no Palácio do Planalto, Onyx está prestes a dividir o posto de homem forte do governo de Jair Bolsonaro com Moro e com Paulo Guedes (Economia), que também serão superministros. Ao que tudo indica, o gaúcho de 64 anos não teme a maldição da Casa Civil, que abateu vários ocupantes dessa cadeira em governos passados, nem a clássica desavença entre o chamado “capitão do time” e o comandante da Fazenda.

“Está tudo na paz do Senhor. Paulo Guedes é meu ídolo”, disse ele ao Estado, quando questionado sobre críticas do futuro ministro da Economia. Os rumores sobre divergências na equipe do presidente eleito aumentaram quando Guedes afirmou, na terça-feira, que Onyx era “um político falando de economia”.

A “bronca” ocorreu depois que o deputado, coordenador da equipe de transição de Bolsonaro, fez comentários sobre política cambial e disse que o projeto de reforma da Previdência do governo de Michel Temer não deveria ser aproveitado, como desejava Guedes, por ser um “remendo”.

“Isso tudo já passou”, desconversou Onyx. “O momento é de poucas palavras.” Nos bastidores, porém, sua atuação tem sido intensa. Nas últimas 48 horas, por exemplo, ele se reuniu a portas fechadas com integrantes das bancadas evangélica, ruralista e da segurança, ouviu reivindicações de empresários e fez várias ligações para Moro.

“Estou aqui matando no peito, batendo escanteio e chegando na área para cabecear”, afirmou ele, andando em ritmo acelerado do tapete azul ao verde, do Senado à Câmara. Na mão, o celular com o adesivo 17 – número de Bolsonaro na campanha – não parava de tocar um minuto. Quando atendia, recorria ao gauchês: “Fala, tchê!”

Médico veterinário por formação e reeleito para o quinto mandato de deputado federal, Onyx já participou de 12 CPIs, entre as quais a dos Correios e a da Petrobrás. Dono de estilo polêmico, na linha “bateu, levou”, ele também coleciona desafetos no Congresso.

Quando foi relator do projeto que tratava das dez medidas de combate à corrupção, em 2016, comprou briga com muitos colegas. Renan Calheiros (MDB-AL), à época presidente do Senado, disse que Onyx tinha um nome que parecia “de chuveiro”, em referência à marca Lorenzetti. No contra-ataque, o deputado chamou Renan de “bandido”.

Em conversas reservadas, críticos de Onyx argumentam que o parlamentar não cumpre acordos e “jogou para a plateia” com um relatório que vetava qualquer tipo de anistia ao caixa 2. Em maio do ano passado, seis meses depois de ter o seu parecer aprovado, no entanto, executivos da JBS o citaram em delação premiada.

Onyx admitiu ter recebido R$ 100 mil em caixa 2, para quitar despesas da campanha de 2014, e pediu desculpas aos eleitores do Rio Grande do Sul. “Vou, diante das autoridades, pagar pelo erro que cometi”, afirmou. Até agora, nenhum inquérito foi aberto pela Procuradoria-Geral da República.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) lembra que, naquela ocasião, Onyx o procurou para explicar o caixa 2. “Ele me disse que entregou no Supremo Tribunal Federal a abertura de seu sigilo bancário, fiscal e telefônico. Foi até uma atitude de se elogiar”, afirmou.

Embora de esquerda, Alencar sempre teve bom relacionamento com o colega. “Se é possível essa classificação, Onyx é da direita do DEM”, comparou. “Sempre foi muito isolado, antipetista radical e acho que tem arestas demais para ser articulador político. É muito briguento e falo como alguém que nunca se desentendeu com ele.”

O amigo e deputado Darcísio Perondi (MDB-RS), porém, ameniza esse temperamento explosivo. “Onyx é um cara que vai para a luta preparado. O que o deixa irritado é uma derrota do Inter”, brinca o conterrâneo. 

No braço direito, o futuro chefe da Casa Civil exibe uma tatuagem do Internacional de Porto Alegre, seu time do coração, a bandeira do Rio Grande do Sul, além da passagem bíblica “... E a verdade vos libertará” (João 8:32). Vermelho, para ele, só mesmo o do colorado.

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