'Esquerda autoritária achava que mudaria o mundo sozinha'

Ao comentar livros que escreveu, ex-ministro se reafirma como socialista e tenta explicar provável aliança com Kassab

Entrevista com

FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h08

"O tempo livre, a alma e, quem diria, uma prótese de primeira natureza, tudo é insumo precioso na busca do lucro. Sob o pretexto de satisfazer as necessidades humanas, a parafernália capitalista não faz mais do que zelar pela sua perpetuação, rebaixando os homens a meios de sua própria conservação." Talvez pudesse ser Marx, mas é um autêntico Fernando Haddad, atirando contra o sistema.

O intelectual, confrontado com o hoje candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, ainda se classifica como socialista, mantém a crítica à "esquerda autoritária" e não dá sinais de que pretende rever o que escreveu. Assegura que algumas "ideias-força" de suas obras permanecem atuais e, quando questionado sobre como defender o socialismo depois de eventual aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab, se justifica: "O grande erro da esquerda autoritária foi imaginar que não precisava de ninguém".

O ex-ministro recebeu o Estado na sede do PT nacional em São Paulo para falar sobre os livros e situações políticas contemporâneas que parecem se chocar com suas antigas ideias.

"Em defesa do socialismo - Por ocasião dos 150 anos do Manifesto", referência à obra comunista de Marx e Engels, é a obra mais política da bibliografia de Haddad, que ainda conta outros quatro títulos. Era 1998, último ano do primeiro mandato de FHC, quando o ex-ministro da Educação lançava a obra pela editora Vozes.

Sobre o modelo soviético, escreveu que "ruiu em boa hora, tirando dos ombros socialistas um fardo político descomunal".

Em 2001, na exposição que originou o livro sobre cooperativas, argumentou: "O PT deveria empunhar com mais brio a bandeira do socialismo". Hoje diz: "Podemos nos valer dessa bandeira com tranquilidade".

O que quer dizer ser socialista no século 21?

Afastar a tradição autoritária que permeou a ação política sobretudo do stalinismo e variantes, sem abdicar de dois valores: o combate às desigualdades socioeconômicas e a celebração da diversidade, da tolerância.

Aquilo que o sr. escreveu em 1998 continua valendo?

Meus livros ficaram sempre na primeira edição. Não saberia dizer se publicaria tal qual foi lançado, mas algumas ideias-força permanecem atuais. Aproveitei minha tese de mestrado, sobre o colapso do sistema soviético, para promover um acerto de contas com a esquerda autoritária, particularmente o stalinismo e o trotskismo, que via naquela experiência perspectivas emancipatórias. Eu via um modo sui generis de transição de velhas sociedades asiáticas, em geral organizadas sob o manto do despotismo, na longa transição para o modo capitalista de produção. Enquanto as pessoas pensavam que pudesse desembocar numa sociedade sem classes, eu via o contrário.

A crítica vale para Cuba?

A qualquer modelo autoritário e de economia centralmente planejada.

A presidente Dilma, na visita a Cuba, deveria ter condenado a situação dos presos políticos?

O que a presidenta disse é que todos têm o dever de casa a fazer quando se trata de direitos humanos. A questão dos direitos humanos não pode se restringir a direitos civis e políticos. A humanidade estendeu esse conceito e trabalha também com direitos sociais. Os países têm que ser analisados à luz desse conjunto de direitos historicamente consagrados.

Mas há uma questão histórica da esquerda com Cuba, que não condena problemas da ilha.

O excepcional trabalho que Cuba faz em relação aos direitos sociais, sobretudo no que diz respeito a saúde e educação, não pode servir de pretexto para diminuir a agenda dos direitos civis e políticos. Mesmo se valendo da explicação clássica das consequências do embargo econômico que os EUA impõem sobre a ilha, ainda assim essa questão deveria ser endereçada, porque é parte da problemática da expansão da liberdade e da igualdade entre indivíduos.

Como defender o socialismo depois de uma eventual aliança com o prefeito Kassab?

Servi o governo Lula com gosto. Ele representou um momento da história do Brasil que eu nunca tinha vivido. Tenho 49 anos de idade e vivi a melhor década da minha história. O governo Lula abriu um leque de oportunidades de desenvolvimento do País que não estavam dadas. O governo Lula teve que fazer alianças. Na política você não pode abdicar dos seus princípios, sobretudo éticos. Não pode abdicar das suas pretensões de transformação da sociedade. O PT vai ser sempre um partido que vai buscar a transformação da sociedade para melhor. O grande erro da esquerda autoritária com a qual o PT rompeu foi imaginar que não precisava de ninguém para mudar o mundo. Nós compreendemos os dilemas da democracia, os constrangimentos nacionais de uma vida política onde as pessoas têm opiniões diversas, onde não há amadurecimento para algumas propostas. Temos também que compreender que muitas ideias de esquerda se mostraram infrutíferas, outras estão mostrando um potencial importante de transformação.

Não incomoda, como intelectual (de esquerda), a frase "nem direita, nem esquerda, nem de centro" do Kassab?

Ele não é filiado ao meu partido, mas a um outro, que tem outra visão de mundo. Em segundo lugar, se você decide participar do jogo da política democrática, você não pode abdicar... deixa eu achar a palavra correta... (pensa alguns segundos) Quando se faz esse compromisso com a democracia, você está, de certa maneira, se comprometendo em respeitar as regras desse jogo. E a democracia é um governo de maioria. É um governo de coalizão. Não estamos num sistema bipartidário, mas pluripartidário. Todo partido que ganhar uma eleição vai ter que promover uma aliança para governar. Como sair dessa aparente contradição? Você tem uma visão de mundo e terá que se aliar com quem pensa diferente de você. A partir do resultado. O governo Lula, apesar de ter feito uma coalizão com partidos que não professam a ideologia do PT, resultou em mais igualdade e mais liberdade para a população. Se uma coalizão colocar em risco os princípios que você defende, aí ela compromete o ideário. Esse é o limite de qualquer aliança. As alianças têm que ser pautadas de tal maneira a não comprometer o objetivo do processo.

O sr. argumenta em um livro que, para subverter a lógica do capital, seria necessário criar um "imposto sobre a superfluidade dos bens". Como?

Outra medida de se fazer essa discussão é quando você discute a taxação das grandes fortunas. Ou quando você aumenta impostos sobre bens supérfluos, como bebida e cigarro. Você deve usar o sistema tributário para orientar a produção, emitir sinais do que a sociedade deseja que seja produzido. Quando você isenta bens de primeira necessidade, desonera de impostos a cesta básica ou o material de construção para moradias populares, você está pensando a partir dessa lógica.

O sr. citou bebida e cigarro...

Dou um exemplo de uma das coisas mais regressivas do ponto de vista tributário: você tem 7 milhões de veículos em São Paulo que pagam IPVA. E tem iates, jatos executivos e helicópteros que não pagam imposto.

O sr. acha que helicópteros deveriam que pagar IPVA?

A Constituição autoriza a cobrança de imposto de todos os veículos automotores. Se você cobra 4% sobre o patrimônio de quem tem um carro popular, não vejo razão para não cobrar os mesmos 4% de quem circula pela cidade de helicóptero.

São Paulo tem uma das maiores frotas do mundo.

Daí compra um carro popular! (risos)

Em sua obra o sr. sugere a socialização dos meios de comunicação, com cooperativas.

Quando se fala em socialização da propriedade privada as pessoas imediatamente associam com privatização. Esse foi um dos grandes equívocos que a esquerda cometeu. Em geral pensamos cooperativas com aquela visão romântica do começo do século 19. Mas o que é o Linux, senão uma produção cooperativa de um sistema operacional? E a Wikipedia, senão a produção cooperativa de uma enciclopédia eletrônica?

O sr. é contrário à regulamentação da mídia?

No que diz respeito a conteúdo, sim.

E no que diz respeito à forma?

No que diz respeito a propriedade cruzada, a impedir monopólio, como nos EUA, penso que é agenda até liberal. A questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação já foi solucionada há muito tempo no mundo desenvolvido. É papel do Congresso discutir os modelos.

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