Escuta telefônica da PF liga secretário de Perillo à Delta

Titular da Segurança de Goiás teria recebido propina para liberar repasses à construtora; assessoria dele nega

RICARDO BRITO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2012 | 03h05

Interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo indicam que o secretário de Segurança Pública de Goiás, João Furtado Neto, teria recebido propina do esquema comandado pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, para supostamente liberar repasses para a Delta Construções.

Em conversas grampeadas com autorização judicial, Cachoeira e o ex-diretor da Delta Cláudio Abreu demonstram irritação com o fato de Furtado supostamente ter congelado os repasses para a empreiteira.

Segundo o ex-diretor da Delta, o secretário teria ameaçado não renovar ao fim do ano passado o contrato para aluguel de carros caso não fosse honrado um compromisso com ele. Para a PF, o acerto seria o pagamento de propina, que, em vez de ter sido repassado ao secretário, estaria sendo embolsado pelo governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo (PSDB).

O contrato do aluguel de carros é apontado pela polícia como parte do "compromisso" firmado no início do mandato entre Perillo e a Delta, com a intermediação de Cachoeira. O acerto envolveria a liberação de créditos milionários devidos à empreiteira pelo governo goiano mediante suposto pagamento de propina ao governador.

"Aquela suspensão do cara (Furtado) e passar para o número 1 (Perillo, segundo a PF), o do babaca do João Furtado, declarou guerra para nós, viu? Travou todo meu procedimento da nota fiscal ir pro (sic) financeiro para me pagar e metendo os cravos em mim", reclamou Abreu, em telefonema a Cachoeira em 15 de julho de 2011.

'Travou tudo'. Cachoeira pede que o ex-diretor da Delta explique a situação novamente. Abreu diz ao contraventor que o secretário teria colocado uma pessoa "no meio do percurso" para cuidar do pagamento das faturas da empreiteira. Ele disse ainda que, com a suspensão do acerto pessoal com Furtado, os repasses foram congelados: "Ele (o secretário) travou nossas coisas lá. Travou tudo".

"E aí?", perguntou Cachoeira. "E aí, mandou recado, meu amigo. Se eu não voltar a cumprir com ele, vai ficar tudo travado e ameaçou chegar no final do ano e não renovar o contrato e licitar tudo de novo", respondeu o ex-diretor da Delta.

A resposta de Cachoeira: "Vagabundo, não é? Porque que ele não pagou antes? Vou falar com Edivaldo que ele tá indo lá agora com o governador (sic)" - referência ao ex-diretor do Departamento de Trânsito em Goiás Edivaldo Cardoso, que deixou o cargo em abril após terem sido reveladas gravações de conversas dele com o contraventor.

Cerca de sete horas depois, os dois voltam a se falar ao telefone. O ex-diretor da Delta pergunta a Cachoeira como foi a conversa com o "número 1". Não fica claro com quem o contraventor conversou. No grampo, Cachoeira diz que Perillo quer falar com ele "pessoalmente". E acrescenta que vão se encontrar na casa de Cardoso. O contraventor acrescenta que vai para a conversa com Perillo com um "arsenal". O tucano admitiu à CPI que se reuniu com Cachoeira na casa de Cardoso, onde conversaram sobre incentivos fiscais para a empresa de medicamentos.

'Ilação'. Em nota, a assessoria de Furtado negou e repudiou "as ilações". Segundo o órgão, os pagamentos para a Delta seguiram um "cronograma normal" desde que o secretário assumiu o cargo, em janeiro de 2011.

A assessoria afirmou que a PF não encontrou "nenhuma prova" contra Furtado e que não há uma gravação sequer de conversa dele com qualquer um dos indiciados. Perillo tem negado qualquer envolvimento de seu governo com o esquema de Cachoeira.

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