Escolha de 2º colocado provoca divisão no MP

Alckmin não nomeou Locke, vencedor de eleição para Procuradoria, por temer 'propostas corporativistas', como concessão do auxílio-alimentação

BRUNO BOGHOSSIAN, ESTADÃO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h05

A decisão do governador Geraldo Alckmin de nomear para o cargo de procurador-geral de São Paulo o segundo colocado na eleição do Ministério Público provocou uma divisão política na instituição. Associações de classe criticaram publicamente a escolha de Márcio Elias Rosa para a vaga. Apoiado pelo antigo chefe do MP, ele recebeu 838 votos, ficando atrás de Felipe Locke Cavalcanti, com 894.

A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) e a Associação Paulista do Ministério Público (APMP) lamentaram que o governador não tenha seguido a opinião da maioria dos procuradores e promotores - como ocorre tradicionalmente.

Em nota, a Conamp sinalizou que há uma divisão de "correntes políticas" dentro do MP. "Desejamos sorte na empreitada ao procurador-geral nomeado, augurando que ele consiga unir as correntes políticas do maior Ministério Público do País em torno dos valores clamados pela classe", declarou o presidente César Mattar Jr.

O presidente da APMP também disse lamentar a nomeação do segundo colocado na eleição. "A associação tinha por dever pleitear a nomeação daquele que teve a maior votação", afirmou Washington Medeiros Barra. "É, porém, uma prerrogativa do senhor governador de Estado, que será respeitada."

Preterido pelo governador, Locke disse ao Estado que a escolha de Alckmin deixa a instituição em um momento difícil. "Lamento a decisão (do governador). Desejo que o Ministério Público supere esse difícil momento."

Corporativismo. Alckmin demonstrava insatisfação com o resultado da eleição desde sua realização, em 24 de março. Ele afirmava que Locke havia feito uma campanha corporativista e sindicalista ao sinalizar que poderia conceder auxílio-alimentação a promotores e procuradores, além de propor o aumento de verba para a instituição.

Para o governador, o acréscimo de gastos colocaria a instituição no mesmo rumo do Tribunal de Justiça. Ele acreditava, no entanto, que o MP deveria seguir na contramão, com foco na redução de despesas.

Alckmin também dava sinais de que tenderia a apoiar o sucessor do atual procurador-geral, Fernando Grella Vieira. Para Alckmin, Grella foi parceiro do governo do Estado, apesar de manter uma postura independente. Ele afirmava que o procurador fez investigações corretas, mas não as transformou em ações de mídia.

Mesmo com uma opinião formada sobre o assunto desde a votação, Alckmin passou as últimas duas semanas conversando com integrantes do MP para consolidar sua escolha, anunciada anteontem. O governador quase esgotou o prazo de 15 dias entre a votação e a nomeação, que terminaria amanhã. Causava dúvida o fato de sua secretária de Justiça, Heloisa Arruda, recomendar o nome de Locke.

No Palácio dos Bandeirantes, a avaliação era a de que Elias Rosa seria bem aceito dentro do MP, pois foi o mais lembrado pelos colegas no chamado "voto seco" - quando o eleitor escolhe um só candidato. Como a votação é plurinominal, cada eleitor podia indicar até três nomes. Entre aqueles que escolheram apenas um candidato, Elias Rosa venceu Locke por 641 a 528. / COLABORARAM MARCELO GODOY e JULIA DUAILIBI

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