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Erundina defende petistas em eventual governo municipal de SP

Ela também afirmou que Dilma 'não teve competência política' e que irá rever proposta de concessão do sistema de transporte coletivo urbano na cidade

Gustavo Porto, O Estado de São Paulo

27 de julho de 2016 | 12h35

A deputada federal e candidata à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina (PSOL), fez na manhã desta quarta-feira, 27, uma série de críticas ao PT - partido que ajudou a fundar e pelo qual foi a primeira mulher a governar a capital paulista, entre 1989 e 1993 - mas disse que terá membros da sua ex-legenda em seu governo, caso seja eleita.

"Quero ter petistas comigo, pois muitos continuam votando (em mim) e são amigos meus. Quero tê-los no governo (...), pois eu vou precisar e a cidade vai precisar de petistas que têm muito a contribuir", disse a candidata em sabatina realizada pelo UOL, o jornal Folha de S. Paulo e o SBT.

A candidata lembrou que está à frente do prefeito e candidato à reeleição Fernando Haddad (PT) nas pesquisas e fez várias críticas às concessões políticas feitas pelo PT durante os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente afastada Dilma Rousseff. "Dilma não teve competência política para exercer o poder que tem como presidente da República. Não dialogava com movimentos e, no poder, quem não gosta de dialogar é complicado", disse Erundina sobre os motivos do afastamento de Dilma. "Lamentavelmente, Dilma e Lula não fizeram aliança com o povo e ficaram reféns do Congresso", emendou.

Sobre o desfecho do professo de impeachment de Dilma, que deve ser julgado em agosto pelo Senado, Erundina disse que com a correlação de forças no Congresso ela não vê chance alguma de a presidente afastada escapar de uma cassação. "Mas, se ela ganhar, terá dificuldade de governar com o desgaste que vem sofrendo há anos. Por isso, é melhor eleição para resolver no voto popular", defendeu. Erundina, no entanto, afirmou ser contrária, como é o PSOL, ao impeachment da presidente, por não haver crime de responsabilidade. "Eu e o PSOL entendemos que não houve crime de responsabilidade contra a presidente. Isso é golpe, ruim para democracia e cria instabilidade institucional".

Erundina classificou o presidente interino Michel Temer (PMDB) como "golpista" e considerou como seu "único desvio" em campanhas eleitorais o fato de tê-lo como candidato à vice-prefeito, em 2004, na disputada à Prefeitura de São Paulo, ainda pelo PSB. "Tenho muitos defeitos, inclusive na política, mas ninguém pode me acusar de incoerência. Único caso de desvio foi o da campanha de 2004, por outro partido, o PSB, que naquela ocasião firmou aliança com o PMDB, partido que tinha Temer na cabeça de chave e aceitou ser vice. Um presidente que articulou um golpe", afirmou.

A candidata do PSOL lembrou que governou São Paulo por quatro anos sem ter maioria na Câmara Municipal e admitiu que, caso seja eleita, dificilmente o cenário será diferente a partir de 2017. Por isso, buscará apoio na sociedade e nos movimentos populares para pressionar a Câmara a aprovar projetos defendidos por ela. "Preço para ter maioria seria ter feito concessões éticas e eu não fiz. O que me salvou foi a aliança com a sociedade civil organizada. Agora vamos conversar com outras forças políticas e fazer uma aliança com o povo", afirmou.

Erundina disse ainda que não está no PSOL para ser candidata à prefeitura e que até avaliava não disputar mais qualquer eleição, apesar de trabalhar para fundar um novo partido, batizado de Raiz. A candidata admitiu ser pouco conhecida entre os eleitores jovens, já que governou São Paulo há 27 anos. "Essa é questão que temos de orientar como estratégica de campanha para chegar aos jovens e dialogar com eles", concluiu.

Auditoria. Luiza Erundina também falou que irá rever a proposta de concessão do sistema de transporte coletivo urbano em São Paulo à iniciativa privada, a qual deve movimentar R$ 140 bilhões em 20 anos, com possibilidade renovação pelo mesmo período. A ex-prefeita paulistana entre 1989 e 1992 disse discordar tanto do período de concessão, quanto de algumas regras, como a criação de centro de operações pelas próprias empresas privadas fiscalizarem o sistema.

"Essa licitação não pode perseverar, pois destoa da forma como são feitas concessões. Como é possível as empresas fiscalizarem a si mesmas?", indagou. "Na Inglaterra, por exemplo, o prazo é de cinco anos, e a cada ano 20% do sistema é licitado de novo. Isso (previsto para São Paulo) é inadmissível, ilógico e fora da modernidade", afirmou a candidata.

Ainda sobre transporte, Erundina lembrou do projeto de se criar o passe livre para toda a cidade durante seu mandato como prefeita e admitiu adotar, caso volte ao cargo, tarifa zero para os finais de semana nos ônibus. "Acesso com gratuidade no final de semana é alternativa, mas as regras ainda precisam ser estudadas."

Erundina disse que, caso seja eleita, não fará concessões nem privatizações do autódromo de Interlagos e dos complexos do Anhembi e do Pacaembu, como defende seu adversário tucano, João Doria. "É bom perguntar se ele já pensou em privatizar a cadeira dele. Ele vai privatizar tudo, pois é empresário. Mas a prefeitura não é qualquer empresa, nem mesmo a dele", disse.

Entre outros projetos polêmicos Erundina defendeu os adotados durante a gestão de Fernando Haddad (PT), como a redução de velocidade nas marginais, as ciclovias e ainda os corredores exclusivos para ônibus. "Queremos construir cidade das pessoas e não dos automóveis, criar alternativas de mobilidade para quem, de fato, tem o direito ao espaço".

Apesar de ser contestada durante a sabatina, Erundina disse que a dívida da capital paulista é de R$ 46 bilhões e não em torno de R$ 30 bilhões como Haddad afirmou ontem durante entrevista semelhante. Apesar da discordância sobre o valor, que foi de R$ 74 bilhões antes de ser renegociado por Haddad, Erundina disse que fará uma auditoria na dívida assim que assumir o cargo caso seja eleita.

Erundina defendeu ainda a o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo, ou seja, cobrar mais dos que são mais ricos, "um tributo direto sobre propriedade", segundo ela, mas afirmou que a proposta ainda está em avaliação. Outra forma de arrecadação, de acordo com a ex-prefeita, é a cobrança da dívida ativa do município, estimada em R$ 66 bilhões, principalmente dos mais ricos. "Não se tem coragem de cobrar grandes devedores, pois há conivência do poder público".

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