Entidade critica uso eleitoral de 'kit gay'

Presidente de movimento GLBT diz que ataque a material aumenta preconceito

O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2012 | 08h20

O debate sobre o chamado "kit gay" na eleição paulistana causou a reação da principal entidade que milita na causa homossexual no País. O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, publicou anteontem carta aberta ao candidato José Serra (PSDB), na qual repudia "o uso de políticas de combate à homofobia como arma eleitoral" e rechaça que o material produzido no Ministério da Educação (MEC) - durante a gestão do candidato Fernando Haddad (PT) - tenha objetivo de "doutrinar" a opção bissexual nas escolas, como disse Serra em entrevista ao Estado.

"Prezado José Serra, não manche sua biografia. Não rife nossos direitos", escreveu Reis na carta. "Peço, para uma boa política comprometida com o respeito a toda a população (...), que a população LGBT não seja utilizada para gerar polêmica em época eleitoral. Isto só serve para validar, banalizar e incentivar a homofobia e manter esta população à margem da cidadania."

Apelidado de "kit gay" pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), um dos críticos da iniciativa, o material educativo sobre diversidade sexual teve a publicação e a distribuição vetadas pela presidente Dilma Rousseff em maio do ano passado. Após sofrer pressão, Dilma atendeu ao pedido de parlamentares da bancada religiosa no Congresso Nacional, que ameaçavam atrapalhar votações de interesse do governo federal. O conteúdo completo do kit Escola sem Homofobia ainda não foi revelado pelo MEC. Segundo Reis, a pasta informou em ofício que o material permanece no setor editorial, aguardando aprovação.

Ao Estado, Reis afirmou que Serra foi preconceituoso e usou adjetivos pejorativos sobre o conteúdo do kit (malfeito, aspectos ridículos e impróprios): "O Serra é uma das pessoas que mais fizeram pela comunidade LGBT; fez uma coordenadoria (na Prefeitura). Eu me choquei quando ele falou que alguém doutrina a pessoa. É um preconceito atroz."

O ativista reconheceu que houve um erro (reprovado por Dilma e Serra) no vídeo Probabilidades, um dos cinco que compõem o kit. Reis relata que, no vídeo, um menino sugeriria que ser bissexual é vantajoso, porque teria o dobro de chances de conseguir companhia para sair.

Religião. O tema voltou à tona na campanha deste ano, em meio a alianças de Serra com pastores evangélicos (entre eles Silas Malafaia), que rejeitaram apoiar Haddad por causa da criação do "kit gay". O conteúdo foi encomendado pela gestão Haddad a um grupo de empresas e ONGs (Ecos, ABGLT, Pathfinder e Reprolatina), que usou vídeos também recomendados pelo programa de combate à homofobia do Estado de São Paulo, feito quando Serra era governador (leia abaixo).

Ontem, Serra negou que os conteúdos dos kits sejam semelhantes e disse que o do Estado era voltado ao "fortalecimento da família". "É mentira que é parecido", disse o tucano.

Questionado, Haddad afirmou que Serra mentiu sobre a existência de um kit na secretaria estadual de Educação: "Assim como ele mentiu sobre a minha conduta e a da presidenta Dilma frente ao episódio, ele mentiu por uma segunda vez".

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