Dida Sampaio/Estadão e Ricardo Labastier/EFE
Dida Sampaio/Estadão e Ricardo Labastier/EFE

Entenda a relação entre os primos João Campos e Marília Arraes, candidatos no Recife

Veja a árvore genealógica do clã Campos-Arraes e como surgiu o racha na família, que tem como maior símbolo político o ex-governador Miguel Arraes

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 18h33

A relação entre os atuais candidatos à prefeitura do Recife (PE), João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), vai além das disputas políticas: os dois também são primos de segundo grau. O racha na família Campos-Arraes não se resume às eleições de 2020. Já tem alguns bons anos que o clã, com uma prolífica genealogia política, está dividido.

No primeiro turno deste pleito, Campos teve 233.028 votos válidos, ou 29,13%, enquanto Marília teve 223.248 votos válidos, 27,9%. O cenário mudou depois da primeira pesquisa Ibope simulando as intenções de voto no segundo turno: a petista tem agora 45% e o candidato pessebista, 39%. Os dois estão tecnicamente empatados no limite da margem de erro, que é de 3%.

A disputa acirrada e o histórico de embates familiares elevou os ânimos no primeiro turno. Marília chegou a chamar o primo de “frouxo” pelo Twitter e o acusou de se esconder atrás da vice, Isabella de Roldão (PDT). “João Campos é frouxo, colocou a vice para criticar as nossas propostas (...) Ressalto: não debato com vice. Se o candidato quiser, crie coragem e venha debater o Recife”, escreveu a candidata.

Os dois buscam firmar o legado de Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, na política. Falecido em 2005, Arraes é avô de Marília e bisavô de João. O candidato pessebista, por sua vez, é filho de Eduardo Campos, que também governou o Estado e se candidatou à presidência em 2014, mas foi morto em um acidente aéreo. Por divergências recentes, porém, não compartilham a força de Arraes conjuntamente.

Veja, a seguir, a árvore genealógica da família Campos-Arraes e como as disputas começaram.

Primeira geração: Miguel Arraes

O patriarca da família é Miguel Arraes de Alencar. Filho de agricultores, nasceu no Ceará e se mudou para o Recife, onde se formou em Direito e trabalhou no Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Casou-se com Célia de Sousa Leão, com quem teve oito filhos entre 1946 e 1959: José Almino, Ana Lúcia, Carlos Augusto, Miguel Filho, Marcos, Maurício, Carmen Sylvia e Luiz Cláudio. 

Célia morreu em 1961. Arraes voltou a se casar, dessa vez com Maria Magdalena Fiúza, com quem teve mais dois filhos: Mariana e Pedro.

Arraes estreou em eleições em 1951, quando se elegeu deputado estadual; em 1960, virou prefeito do Recife e, em 1962, governador do estado pelo Partido Social Trabalhista (PST), hoje extinto. Entretanto, foi deposto pelo governo federal em 1964, após o golpe militar. Ficou preso em Fernando de Noronha por cerca de um ano e meio, até que foi solto e partiu para o exílio na Argélia.

O político voltaria para o Brasil apenas em 1979. Arraes cumpriu outros três mandatos como deputado federal e se elegeu governador mais duas vezes, em 1986 e em 1994, firmando o seu nome como um dos políticos mais tradicionais de Pernambuco.

Segunda geração: Ana Arraes

Ana Lúcia Arraes, nascida em 1947, seguiu a carreira política, a exemplo do pai. Ela também se formou em Direito e filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) na mesma época em que Miguel, na década de 90. Em 2006, foi eleita deputada federal pelo Estado, e repetiu o feito em 2010. No ano seguinte, foi eleita para ser ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), onde é vice-presidente, durante o governo de Dilma Rousseff (PT). Ana Lúcia teve dois filhos com Maximiano Accioly Campos, que morreu em 1998: Eduardo e Antônio.

Outros filhos de Miguel Arraes preferiram distância do campo político. Miguel Filho, conhecido como Guel Arraes, é um diretor de novelas e filmes como O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. É pai da atriz Luisa Arraes.

Terceira geração: Eduardo, Antônio e Marília

Eduardo Campos, um dos filhos de Ana, foi um dos membros da família com maior destaque na política. Também formado em Direito, foi eleito pela primeira vez em 1991, como deputado estadual. Depois, virou deputado federal e licenciou-se algumas vezes de seus mandatos para atuar nos governos do avô. Em 2004, tornou-se Ministro da Ciência e da Tecnologia no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, dois anos mais tarde, elegeu-se governador de Pernambuco, cargo no qual permaneceu por outros dois mandatos.

Eduardo e a esposa, Renata Andrade Lima, tiveram cinco filhos: Maria Eduarda, João Henrique, Pedro Henrique, José Henrique e Miguel. 

Em 2014, Campos se candidatou à presidência da República com Marina Silva (Rede) como a sua vice. A campanha, no entanto, foi curta: ele morreu em um acidente de avião no mesmo dia em que o seu avô, Miguel.

O seu irmão, Antônio, é escritor e chegou a se candidatar para o cargo de prefeito de Olinda (PE) em 2016, mas não foi eleito. Atualmente é presidente da Fundação Joaquim Nabuco, associada ao Ministério da Educação.

Eduardo e Antônio Campos eram primos da hoje candidata Marília Arraes, filha do administrador Marcos. Ela atuou no governo de Eduardo como secretária de Juventude e Emprego até que foi eleita vereadora do Recife em 2008, cargo no qual cumpriu três mandatos. Em 2016, se desfiliou do PSB e foi para o PT.

Marília chegou a se lançar como pré-candidata ao governo do Estado em 2018, cargo que disputaria com o ex-governador e ex-colega de partido, Paulo Câmara. O PT, porém, preferiu firmar uma aliança com o PSB a nível nacional e no Estado, apenas apoiou a candidatura. Ela se candidatou, então, ao posto de deputada federal e foi eleita, cumprindo o mandato até o momento.

Quarta geração: João Campos e o racha na família

João, filho de Eduardo e Renata, despontou na carreira política após se formar em Engenharia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Depois de ingressar no PSB e atuar na coordenação de encontros do partido no Estado, foi nomeado chefe de Gabinete do governo de Paulo Câmara. Também chegou a comandar a Secretaria Nacional de Juventude da sigla. A sua primeira disputa eleitoral foi em 2018, quando virou deputado federal após votação recorde.

Entre os primos, o racha começou em 2014, quando João foi escolhido pelo partido para o comando da Secretaria Nacional de Juventude, posto então visado por Marília. Ela também criticou o apoio do partido a Aécio Neves (PSDB) no segundo turno daquelas eleições, sugerindo uma “guinada à direita”.

Outras disputas da família vieram à tona em 2016. Depois de perder a eleição em Olinda, Antônio, tio de João, acusou o partido de “traição” e de “ingratidão” por parte da cunhada, Renata.

Já em 2018, durante uma sessão na Câmara de Deputados, João disse ao então ministro da Educação, Abraham Weintraub, que não tinha nada a ver com o tio, Antônio: “Eu nem relação tenho com ele, ministro. Ele é um sujeito pior que você”. Antônio respondeu dizendo que o jovem foi “nutrido na mamadeira da empresa Odebrecht” e que queria “se mostrar” para a nova namorada, a também deputada Tabata Amaral (PDT). Ana, avó do hoje candidato à Prefeitura, repreendeu o neto em entrevista à Rede Nordeste de Rádios e disse ter ficado “entristecida” com a situação.

Conforme afirmou ao Estadão em janeiro, Antônio é crítico às alianças do PSB com petistas e afirmou ter “mais convergências do que divergências” com o atual presidente, Jair Bolsonaro. Depois da entrevista, Antônio disse ter sido ameaçado de morte. Naquela ocasião, Marília comentou, por nota, que a briga dos parentes não lhe dizia respeito.

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