Claudia Trevisan/Estadão
Claudia Trevisan/Estadão

‘Ênfase deveria ser acordo de livre comércio com EUA’, diz ex-conselheiro da Casa Branca

Para Fernando Cutz, novo presidente deve buscar aproximação comercial com governo Trump

Entrevista com

Fernando Cutz, ex-conselheiro da Casa Branca

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2018 | 06h00

WASHINGTON - A política externa do próximo presidente do Brasil deve incluir a retomada de liderança na região e a tentativa de um acordo comercial com os Estados Unidos, defende o ex-conselheiro da Casa Branca Fernando Cutz. “A ênfase no próximo governo, seja quem for, deveria ser um acordo de livre comércio entre Brasil ou Mercosul com EUA. O (presidente americano Donald) Trump está querendo coisas assim, com um mercado do tamanho do Brasil”, afirma Cutz, em entrevista ao Estado. Ele diz que Trump e o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, têm semelhanças de estilo e defende que a região discuta uma “ação militar multilateral” para a crise na Venezuela. 

Brasileiro, Cutz vive nos EUA desde os 6 anos e fazia pessoalmente o briefing do presidente democrata Barack Obama e depois do republicano Trump sobre assuntos relacionados à América do Sul. Ele saiu do governo americano em abril deste ano e desde o início de outubro integra o time da consultoria Cohen Group. No governo americano, Cutz ocupou a posição de diretor para América do Sul para o Conselho de Segurança Nacional dos EUA e assessorou a histórica viagem de Obama a Cuba – a primeira de um presidente americano à ilha desde 1928.

O que esperar dos Estados Unidos na relação com o próximo governo brasileiro?

O Brasil sempre teve boa relação com os EUA, sempre fomos parceiros. A situação doméstica está complicada desde o final do governo Dilma. O presidente Temer nunca teve a força política doméstica que desse a ele um mandato forte, então, não temos uma relação tão forte como já tivemos no passado. Todos nós esperamos com a eleição uma mudança para que o Brasil volte a reclamar o seu lugar como líder, não só da região, mas do mundo. Quem for que ganhe, deve estar pronto para começar esse trabalho duro de retomar essa posse e ajudar o Brasil a subir de volta, diplomaticamente.

O que faria o Brasil retomar essa atenção?

Uma das coisas, claro, é uma visita à Casa Branca ou visita do Trump ao Brasil. Isso é o nível político mais básico. Mas, fora isso, tem o nível econômico. Muitas mudanças que o Brasil pode fazer seriam vistas como positivas para países que queiram investir no Brasil. Simplificar impostos, mudar o sistema interno de Previdência e, quando puder, abrir de novo para investimento, para privatização de mais companhias. Se olhar para os países da região que estão recebendo mais atenção em termos econômicos, estão México, Peru e Colômbia. O que eles têm em comum? Os três estão fazendo trabalho possível para trazer investimento do resto do mundo para dentro deles e, enquanto isso, o Brasil cria obstáculos. Os três países agora têm acordo de livre comércio com os EUA. O Brasil nunca quis negociar isso por causa do Mercosul.

A boa relação com Trump depende de qual dos dois candidatos for eleito?

Nem tanto quem for o eleito, mas o que fizer depois. Nenhum dos dois é presidente ainda e poderão fazer o que quiserem quando ganharem. Mas, baseado no que estão falando, parece que Bolsonaro seria mais pró-mercado e pró-Estados Unidos. A ênfase no próximo governo, seja quem for, deveria ser um acordo de livre comércio entre Brasil ou Mercosul com EUA. O Trump está querendo coisas assim, com um mercado do tamanho do Brasil. Seria algo enorme.

Do que os EUA estariam dispostos a abrir mão para costurar esse acordo? 

A negociação seria longa e não seria para amanhã. Demoraria anos. Mas começar esse processo levaria não só uma mensagem muito positiva entre os países, mas iria trazer uma nova confiança dos investidores no mercado, por saber que o Brasil e a região estão comprometidos com uma agenda econômica.

O apelido de ‘Trump brasileiro’ para Bolsonaro, dado por publicações internacionais, faz sentido?

Cada pessoa é individual, mas eles têm coisas parecidas. Os dois falam sem se importar com as consequências. No caso do Trump, muitas vezes fala sem agir. Bolsonaro tem certas políticas que parecem muito com as de Trump: mudar a embaixada para Jerusalém, sair do Acordo de Paris, ser duro contra (o presidente venezuelano, Nicolás) Maduro. Isso, com certeza, iria alinhá-lo com Trump. No nível pessoal, acho que eles iriam se dar muito bem. Agora, mais importante do que o nível pessoal, é o nível de política entre os dois países. O medo que existe nos EUA sobre Bolsonaro é quão longe ele irá nos direitos humanos, na direção do (presidente) Rodrigo Duterte, das Filipinas, ou se seguirá um processo de lei e ordem. Se ele entrar e, como Trump, acabar não agindo como fala, teria tudo para se darem bem.

Trump sabe que há um candidato brasileiro associado à figura dele?

Saí em abril (do governo), ele não sabia ainda. Não sei se ele sabe agora. Ele gosta muito do presidente eleito do México, López Obrador, porque ele é chamado de ‘Trump do México’, mesmo AMLO sendo bem diferente e de esquerda. Só por ter o mesmo estilo ele já gosta. 

E como imagina que seria a relação de Fernando Haddad com a Casa Branca?

Nessa administração do Trump, o Haddad não teria uma linha direta de amizade, não me parece ser o estilo dele. De novo, as políticas que ele iria seguir seriam mais de esquerda, como o PT historicamente segue.

O que os EUA esperam do Brasil na questão da Venezuela?

Imagine quando o Brasil passar de 100 mil para 1 milhão de imigrantes recebidos da Venezuela. O que vai fazer? Então, aqueles que não querem falar de ação militar ou solução prática precisam dizer qual é a solução deles. Não fazer nada tem consequências.

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