Andre Penner/ AP
Andre Penner/ AP

Enchentes em SP: obras ‘imediatistas’ e sem continuidade são entraves; veja propostas de candidatos

Urbanistas apontam necessidade de aumentar o número de áreas verdes e adotar materiais permeáveis em calçadas e ruas

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 10h24
Atualizado 14 de novembro de 2020 | 09h23

Com medidas pontuais, as propostas dos candidatos à Prefeitura de São Paulo para conter as enchentes esbarram na falta de um plano contínuo, que sobreviva à troca de gestão. Especialistas apontam que o aumento na frequência de chuvas intensas devem transformar as inundações em um dos principais desafios ao próximo prefeito, o que é agravado por décadas de investimento em soluções imediatistas como piscinões e grandes obras de drenagem.

Os programas de governo dos candidatos falam em recuperação ambiental de áreas estratégicas, criação de novos sistemas de monitoramento das enchentes, operações para limpar bueiros e desassorear rios, trocar pavimentos, aumentar o número de parques lineares e investir em obras de infraestrutura. Há poucos detalhes sobre como as obras serão feitas, as prioridades entre as ações e como as medidas podem ser complementares na solução do problema.

Para Entender

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O plano do prefeito Bruno Covas (PSDB), que tenta a reeleição, por exemplo, fala em “investir pesado em saneamento básico, remoção de áreas de risco, drenagem, prevenção de enchentes e alagamentos”, além de destacar nove piscinões entregues pela gestão atual.

Celso Russomanno (Republicanos) prevê “dar continuidade ao programa de recuperação ambiental dos cursos d’água” e também implantar “a tecnologia de fitorremediação e uso de meios naturais para a recuperação das microbacias do município”.

Guilherme Boulos (PSOL), que traz ao menos cinco medidas para o tema, promete um “Sistema Municipal de Prevenção e Mitigação de Desastres”, ampliação das áreas verdes, um Plano Municipal de Drenagem para aumentar o uso de materiais permeáveis no solo e a ampliação da “Operação Cata-Bagulho” para retirar objetos de canais e córregos da cidade.

Márcio França (PSB) quer intensificar a limpeza de bueiros e desassorear córregos para melhorar o fluxo de água na rede de drenagem, e menciona também campanhas de conscientização contra o descarte irregular do lixo. Ele cita ainda um recapeamento estratégico de vias para melhorar a absorção de água, e um plano de mapeamento das áreas de risco.

Áreas verdes

O consenso entre urbanistas é que, para diminuir os alagamentos, é necessário aumentar o número de áreas verdes e adotar materiais permeáveis em calçadas e ruas. Isso porque as redes de drenagem feitas ao longo de décadas hoje agravam a inundação: elas jogam a água da chuva com grande velocidade nos canais e sobrecarregam os rios. A criação de parques, áreas verdes e calçamento permeável serve para “amortecer” o impacto das chuvas, que fica retida no solo por mais tempo.

Em vez de abolir as obras de infraestrutura caras e de difícil manutenção, especialistas sugerem soluções de menor porte e a combinação de várias medidas pela Prefeitura pois, isoladas, cada uma das propostas deve ter eficácia limitada. “São um conjunto de soluções que são articuladas, não existe uma melhor ou pior: são soluções conjuntas”, diz a professora Renata Bovo Peres, do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“Na maioria das cidades que vemos mecanismos mais inovadores sendo construídos, não são quatro anos de projetos e sim dez, então temos de investir em projetos a médio e longo prazo”, diz Renata.

Ela lembra que os eventos climáticos extremos, como as enchentes que paralisaram São Paulo no início de fevereiro deste ano, têm ficado mais comuns. Um estudo de pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI), aponta que chuvas com grandes volume d’água ficaram mais frequentes ao longo dos últimos 70 anos. Além disso, as cidades paulistas concentraram cerca de 33% das inundações entre 2014 e 2018.

Regime de chuvas

O professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Roberto Jacobi afirmou que a mudança do regime de chuvas inviabiliza os piscinões. “Os eventos extremos demandam que a manutenção urbana seja cada vez mais importante e que os rios e os fluxos hídricos tenham capacidade de assimilação do volume de água quando temos precipitações muito além do esperado.” 

Encarado como uma espécie de vilão entre os especialistas, o piscinão hoje serve como uma solução para situações emergenciais. Alto custo, de difícil manutenção, em muitos casos ele se torna depósito de lixo em períodos de seca, concentra insetos e roedores, o que traz riscos à saúde da comunidade no entorno. Por outro lado, em casos de grandes tempestades é o que impede inundações maiores. 

Jacobi lamenta a falta de planejamento a longo prazo. “Houve um movimento importante de implementação de parques lineares que depois se interrompeu. Esse é um dos grandes complicadores da política pública: a descontinuidade de certos tipos de agenda.” 

Problema recorrente

O número de casas abandonadas e à venda na travessa Correntinos, no bairro do Tremembé, costuma aumentar logo após a temporada de chuvas a cada ano. O movimento de moradores nessa parte da zona norte de São Paulo é contínuo e seu principal problema, perene: qualquer chuva forte é suficiente para, em pouco mais de meia hora, deixar o asfalto e a calçada completamente alagados. 

Logo após uma grande enchente em 2006, o administrador de redes Marcos Carmona, de 55 anos, sentou na calçada da Correntinos e chorou. A água invadiu sua casa e estragou dez computadores de clientes que valiam, à época, cerca de R$ 30 mil ao todo. Teve de fazer um empréstimo para cobrir o prejuízo. Nos 20 anos que mora ali, Marcos já teve o carro arrastado pela enxurrada três vezes.

“Eu sentei aqui e chorei igual criança”, ele conta. “Toda a água se concentra aqui, que é o ponto mais baixo, o rio é aqui embaixo. Vira uma piscina mesmo, vem peixe, vem tartaruga.” 

O advogado Fábio Tommasini de Carvalho, de 60 anos, calcula que deve ter gastado, em reparos, o triplo do valor da sua casa. Morador da rua desde criança, ele lembra que antes da expansão urbana ao lado da serra da Cantareira, a chuva formava ali um pequeno espelho d’água. Com o asfalto e as calçadas de concreto, passou a se acumular água em maior volume e mais rapidamente. 

Fábio conta que não foram raras as vezes em que ficou limpando o estrago de uma enchente até a madrugada para, no dia seguinte, uma nova chuva trazer a lama novamente. “É uma degradação psicológica”, ele resume. “O cidadão traz para si a obrigação que é do Estado, e não tem como vencer.”

No bairro do Imirim, também na zona norte, uma das maiores enchentes na região em décadas deixou um rastro de estragos. Levados pela enxurrada, três carros ficaram empilhados em um córrego que inunda rotineiramente no verão.

Parte do problema é o lixo acumulado acima do córrego, que foi canalizado e coberto por concreto. Moradores instalaram uma grade por conta própria para impedir o descarte irregular de lixo.

“Se você deixar aberto, vira ponto de entulho”, diz o professor Carlos Rodrigo de Almeida, que visita a casa dos avós, ao lado do córrego, há 28 anos. “Depois que fez isso aqui, não tem mais cama, sofá, colchão.”

A um quarteirão de distância, alguns moradores acumulam nas garagens os eletrodomésticos estragados pela inundação. A diarista Maria Luciene, de 54 anos, mudou-se para o bairro há um ano para ficar mais próxima da família. Depois da enchente, porém, pensa em voltar para a favela onde vivia, na zona norte. O carro foi invadido pela água e já não funciona, as paredes perderam o reboco, e ela vive com medo de uma acordar e ver os móveis levados pela chuva novamente.

“Agora, a cada hora que o céu fica assim, nublado, você já começa a pensar”, diz Maria. “Imagina acordar boiando?”

 

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