Empresário relata tortura na Era Vargas à Comissão da Verdade

Depoimento prestado pelo ex-integrante do PCB foi o primeiro referente a um período anterior ao regime militar

O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2013 | 02h03

O engenheiro Boris Tabacof, 84 anos, ex-diretor do Grupo Safra e atual presidente do Conselho de Administração da Suzano, se tornou a primeira pessoa a relatar à Comissão Nacional da Verdade (CNV) torturas cometidas por agentes do Estado brasileiro no período anterior à ditadura militar.

Preso por motivos políticos em 1952, durante o governo democrático de Getúlio Vargas (1951-1954), Tabacof foi confinado em celas no Forte do Barbalho, em Salvador, na Bahia, e sofreu espancamento e privação de sono sob ameaça de uma baioneta. No total, ficou preso por 400 dias.

Tabacof, então com 24 anos, era membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e apoiava um grupo de militares nacionalistas e comunistas que atuavam dentro das Forças Armadas. Era secretário de organização do comitê estadual da Bahia do PCB, o segundo cargo do partido no Estado. Foi preso em 20 de outubro de 1952, dentro de um ônibus, e conduzido à prisão.

"Me obrigaram a tirar a roupa e a ficar nu durante vários dias e a única coisa que tinha nesse cubículo era um balde para as necessidades e esse balde não era retirado. Então tinha que dormir no chão e, de vez em quando, chegava um soldado e jogava água", relembrou. Segundo Tabacof, as celas ficavam em um pátio central no Forte do Barbalho, eram semi-subterrâneas e tinham "grades cobertas de tábuas para ninguém ver o que estava acontecendo".

Trauma. Ele levou mais de 60 anos para superar o trauma e trazer a história a público. Para isso, contou com apoio da filha, a psicanalista Heidi Tabaco. "Eu nunca conversei com a família, nem com ninguém (sobre esses fatos). Claro que a gente vai tendo essas marcas, que aí já é assunto da doutora Maria Rita (Kehl, psicanalista integrante da CNV), eu não sei explicar por que, contar essas histórias, até mesmo dentro da família, foi sempre muito difícil", afirmou.

O depoimento do empresário foi concedido em novembro do ano passado, no gabinete da Presidência da República em São Paulo, aos juristas José Carlos Dias e Paulo Sérgio Pinheiro e à psicanalista Maria Rita Kehl, membros da CNV. Seu conteúdo só foi divulgado ontem.

A lei que instituiu a CNV prevê a apuração de graves violações de direitos humanos ocorridas no País desde o início do primeiro governo Vargas, em 1946, até a promulgação da Constituição Federal em vigor, em 1988. A Comissão tem um grupo de trabalho específico para apurar violações no período anterior à ditadura militar, coordenado pela advogada Rosa Maria Cardoso da Cunha.

Segundo afirmou à CVN, Tabacof entrou no PCB com 17 anos, sob impacto dos crimes cometidos durante a 2ª Guerra Mundial. Judeu e filho de imigrantes, estava no primeiro ano de engenharia civil, na Escola Politécnica da Bahia. Ele deixou o PCB em 1956, após a revelação dos crimes de Josef Stalin na União Soviética.

Após sair da prisão, Tabacof foi secretário da Fazenda do Estado da Bahia nas administrações dos governadores Lomanto Jr. e Luiz Vianna Filho, entre 1965 e 1970. Também foi presidente do Banco do Estado de São Paulo (Banespa) entre 1988 e 1989. / B.L.

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