Empresário diz à CPI que pagou casa de Perillo em dinheiro e complica tucano

Em depoimento de mais de quatro horas à Comissão Parlamentar de Inquérito do Cachoeira, o dono da Faculdade Padrão, Walter Paulo Santiago, disse ontem ter usado notas de R$ 50 e R$ 100 para pagar a casa de R$ 1,4 milhão comprada do governador de Goiás, Marconi Perillo, em julho de 2011. A nova versão para a compra do imóvel traz mais um elemento que complica a situação do tucano na CPI.

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

06 Junho 2012 | 06h37

Foi nesse imóvel, em um condomínio de luxo em Goiânia, que o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso pela Polícia Federal em 29 de fevereiro.

Diante da nova versão sobre a venda da casa, o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-SP), defendeu a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico de Perillo. O depoimento do governador está marcado para o dia 12. Em nota, o governo goiano afirmou ontem que "só há uma versão, a verdadeira, dos fatos" e nega contradição entre os relatos.

A versão dada por Walter Paulo à CPI traz divergências em relação à história contada pelo próprio Perillo. O governador afirma que recebeu três cheques - dois de R$ 500 mil e um de R$ 400 mil - pela venda do imóvel.Os cheques teriam sido repassados ao governador pelo ex-vereador Wladimir Garcez (PSDB), que intermediou a compra. Segundo Garcez, os cheques eram da Babioli, confecção de Anápolis (GO) registrada em nome de uma cunhada de Cachoeira e que recebeu R$ 250 mil da Alberto e Pantoja - segundo a PF, uma empresa de fachada usada para movimentar dinheiro da Delta e da máfia dos caça-níqueis.

No depoimento, Garcez afirmou ter comprado a casa do governador, depois de pedir empréstimo a Cachoeira e a Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta no Centro-Oeste. O ex-vereador contou que só procurou Walter Paulo ao perceber que não teria como cobrir os cheques emitidos e repassados a Perillo. Garcez, que era consultor da Delta, teria recebido então R$ 100 mil de comissão pela venda da casa.

Em depoimento à CPI, o delegado Matheus Mella Rodrigues, que comandou a Operação Monte Carlo, disse que os cheques que pagaram o imóvel foram emitidos por Leonardo Augusto Ramos, sobrinho de Cachoeira.

História. "A situação do governador ficou mais complicada porque o Walter Paulo afirmou que pagou pela casa em dinheiro vivo, em julho. Ocorre que já sabemos que três cheques, totalizando R$ 1,4 milhão, também foram depositados na conta do governador. Ou seja, ele teria recebido R$ 2,8 milhões", disse Odair Cunha. "A verdade é simples e a mentira, complicada. Temos aqui uma história montada. Alguém está mentindo."

O relator da CPI quer que seja feita uma avaliação para saber o valor real do imóvel. Segundo Cunha, durante as negociações para a compra do imóvel, conversas flagradas pela PF entre Cachoeira e Garcez apontavam o valor da casa em R$ 3 milhões.

Walter Paulo afirmou à CPI que entregou R$ 1,4 milhão "em pacotinhos", em julho de 2011, a Garcez e a Lúcio Fiúza, assessor de Perillo. A negociação foi feita pela Mestra, da qual ele é administrador. Com capital social de R$ 20 mil, a empresa foi criada em 2006 por ex-funcionários da faculdade de Walter Paulo e, em cinco anos, fez dois negócios: comprou um lote e a casa de Perillo.

Segundo Walter Paulo, o dinheiro da compra veio da faculdade e foi emprestado à Mestra. Ele explicou que, entre fevereiro e julho de 2011, tirou dinheiro das contas da faculdade para comprar o imóvel. "Não paguei com cheque. Paguei em dinheiro com nota exclusiva de R$ 50 e R$ 100", disse. Ao ser indagado sobre os cheques emitidos pelo sobrinho da Cachoeira, disse que não o conhece nem nunca o viu.

Ele contou que, a pedido de Garcez, deixou uma "moça" morando na casa: era Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, que ocupou o imóvel por sete meses. O empresário disse que não sabia que Cachoeira morava na casa.

No depoimento, Walter Paulo afirmou que não é amigo de Perillo, apesar de o governador ter sido padrinho de casamento de 2 de seus 11 filhos. Questionado, o empresário fez questão de dizer que o ex-governador Íris Resende (PMDB) também foi padrinho de casamento de seus filhos.

Diante da versão confusa de Walter Paulo, os tucanos saíram em defesa do governador. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) não fez perguntas e elogiou a a postura do depoente. Francisco Francischini (PSDB-PR) optou por não falar nada. Já o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), tentou ignorar as contradições da versão do empresário. "Primeiro, temos que questionar o governador. Só depois é que saberemos se a situação dele se complica ou descomplica."

Além de Walter Paulo, a CPI também ouviu ontem Sejana Martins, uma das sócias da Mestra. Munida de habeas corpus, ela ficou em silêncio, depois de afirmar que hoje é sócia apenas de uma escola, tendo saído da Mestra em 6 de julho de 2011. Ela negou conhecer Cachoeira.

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