Empresário, diplomata, mecenas. E uma só vida

Moreira Salles foi protagonista de momentos cruciais da vida política brasileira

Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo,

27 Maio 2012 | 03h06

De menino da roça a cidadão do mundo, a história do mineiro Walther Moreira Salles (1912-2001), cujo centenário de nascimento celebra-se na segunda-feira, 28, bem poderia render filme ou livro daqueles calcados em sagas pessoais. Mas a complexidade do personagem parece maior: a criança que sai aos cinco anos de idade, em lombo de burro, de Pouso Alegre para Poços de Caldas, cruza um século de profundas transformações.

Move-se num Brasil que se urbaniza, numa economia agrícola que se expande para o setor primário e de serviços, numa capital à beira-mar que envereda para o Planalto Central. Foi nessa paisagem mutante que Moreira Salles assumiu, ainda jovem, o controle de uma casa bancária. Depois uma união de bancos. E uma poderosa gama de negócios em setores como mineração, petroquímica, agroindústria.

Foi protagonista de momentos decisivos da vida política brasileira. Negociador da dívida externa, embaixador em Washington, ministro da Fazenda no gabinete parlamentarista de Tancredo, serviu a quatro presidentes: Getúlio, Juscelino, Jânio e Jango. No regime militar, quase foi cassado. Quando nada mais precisava provar e nada se lhe exigiria, criou um instituto cultural modelar, o IMS.

O Estado produziu um especial com relatos e histórias do banqueiro que virou mecenas, sem perder o DNA de servidor público. Leia:

Memórias de um negociador sob medida

ENTREVISTA - Pedro Moreira Salles, banqueiro

"Ele teria ficado bem surpreso". Assim, com poucas palavras, o presidente do Conselho de Administração do Itaú-Unibanco, Pedro Moreira Salles, define a reação que seu pai teria, se vivo fosse, diante da crise financeira que abalou renomadas instituições financeiras em 2008. A voracidade especulativa definitivamente não combinava com o vinco e o bom corte dos ternos de Walther Moreira Salles, o banqueiro que mais de uma vez largou o leme de suas empresas para acudir o País em duras negociações da dívida externa; ou para azeitar relações bilaterais como embaixador em Washington.

Para refletir sobre a presença paterna no cenário nacional e internacional, exatamente no centenário de nascimento de Walther Moreira Salles (que acontece amanhã, 28 de maio), Pedro concede esta rara entrevista. É também o momento em que, ao lado dos irmãos Fernando, Walter e João, anuncia o início do processo de análise e sistematização dos arquivos do embaixador, uma personalidade que marcou não só o mundo econômico, mas a vida política e cultural do País. A conversa parte do sudoeste de Minas. É inescapável.

Qual foi a influência sobre o seu pai do pai dele, João Moreira Salles, que cedo puxou o filho para os negócios?

Meu pai falava de meu avô, com quem não convivi, com enorme carinho. Era um homem do interior, de origem humilde, um comerciante. Há histórias folclóricas sobre João Moreira Salles, como a de que teria saído a pé de Cambuí para Pouso Alegre, onde meu pai viria nascer em 1912. A verdade é que a origem dos negócios foi uma casa de secos e molhados, depois um armazém em Poços de Caldas e lá o banco nasce como um escritório que negociava títulos dos cafeeiros locais. Quanto ao fato de meu pai ter começado a trabalhar cedo, creio que era o hábito da época. A família morava em cima da loja, então provavelmente ele voltava do colégio, passava por lá e via o pai atendendo os clientes. Isso fez com que desenvolvesse uma ideia que ficou para a vida toda, de que banco é serviço. Pessoas servindo pessoas. Depois levou a mesma ideia adiante, servindo o País.

Nas notas biográficas sobre seu pai comumente se afirma que ele desenvolveu o traquejo social que o distinguiria ainda em Poços de Caldas.

Não sei avaliar isso. De fato Poços de Caldas tornou-se um lugar importante na vida republicana porque Getúlio Vargas gostava de lá. Enquanto a sociedade do Rio migrava para Petrópolis, Getúlio preferia ir para Poços. Mas esse trato social que papai tinha parecia ser algo dele. Meus tios eram pessoas educadas, cordiais, mas essencialmente locais. Já meus irmãos e eu crescemos numa casa por onde passaram Henry Ford II, Nelson Rockefeller, Niarchos, Onassis, Mick Jagger, enfim, meu pai convivia muito bem com essa diversidade. E minha mãe (Elisa Gonçalves Moreira Salles, morta em 1988), também. Formaram um casal com grande capacidade de circular num mundo que não era o deles na origem.

Como era a relação dele com Getúlio?

Foram bem próximos. Getúlio o indicou para presidir a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), origem do Banco Central, e finalmente o nomeou embaixador em Washington, em 1952. Ele contava histórias do presidente, mas uma em particular me impressionou. Próximo do suicídio, Getúlio o chamou para um encontro no Palácio do Governo em Petrópolis. Foi um almoço longo, só para os dois, embora meu pai não estivesse mais no governo. A certa altura, Getúlio virou-se para ele e perguntou se tinha programa para o jantar. Meu pai respondeu que iria a uma festa em casa de amigos no Rio, mas quis saber a razão da pergunta. Getúlio respondeu que não era nada especial, apenas poderiam prosseguir a conversa no jantar. Meu pai reagiu: "Presidente, se o senhor me permitir, aviso os amigos e fico para jantar com o senhor". Getúlio recusou: "O senhor é jovem, embaixador, precisa se divertir. Retiro o convite". Acompanhou-o até o carro, despediu-se e voltou, sozinho, para dentro do palácio. Meu pai nunca se esqueceu daquele último encontro. Guardou a imagem da solidão do poder.

A política o encantava?

Gostava de política, mas não era um político no sentido tradicional. Foi convidado a assumir posições importantes não só com Getúlio, mas com Juscelino, Jânio e Jango, e assim que possível voltava para o banco. Até o entusiasmaram a candidatar-se ao governo de Minas. A ideia não prosperou.

Fizeram história as recepções que ele oferecia na casa que mandou construir na Gávea, hoje sede do Instituto Moreira Salles no Rio.

Quando você olha a casa vê que ela tem cara de embaixada. Originalmente era uma residência espaçosa na área social, com apenas três quartos. Com o tempo ganhou mais dois quartos, e parou por aí. Recentemente levantamos a correspondência de meu pai com o arquiteto Olavo Redig de Campos, ao longo de quatro anos, e vimos que só ele se relacionava com o autor do projeto e a construtora. Falava das visitas que fazia à obra, do que imaginava estar atrasado, discutia detalhes, enfim, tudo ele, Walther. Casou-se com minha mãe em 1954, e ela então se dedicou a selecionar a mobília e as obras de arte. A casa foi uma espécie de instrumento de trabalho, um lugar que não hospedava, recebia. Quando o Henry Ford II veio ao Brasil, por razões de logística e segurança ele se hospedou lá. E nós, a família, tivemos que nos mudar por falta de espaço.

Como foi o relacionamento de Walther Moreira Salles com Juscelino?

Não tinha por Juscelino a mesma admiração que teve por Getúlio, em quem reconhecia uma figura marcante, que modernizou o Brasil mesmo no regime de força. Meu pai também não aprovava o projeto de tirar a capital do País do Rio e levá-la a um lugar isolado. A convocação que Juscelino lhe fez é outra boa história: o presidente o chamou a Laranjeiras exatamente quando, fora do palácio, havia uma ruidosa manifestação "fora FMI", de apoio ao governo brasileiro por haver rompido com o fundo. Só que ao mesmo tempo Juscelino encarregava meu pai de reatar relações com o fundo. Aquilo era uma jogada política. Papai embarcou para os EUA com a família em 1959, justamente para atuar na transição do presidente Eisenhower para John Kennedy, com quem conviveu mais de perto.

Afinal, quem foi o grande amigo americano de seu pai?

Nelson Rockefeller. Foram sócios na fazenda de Mato Grosso, depois quando o Nelson quis sair a candidato à presidência dos EUA e precisava de dinheiro para a campanha, vendeu a participação no empreendimento para o irmão, David, que era o banqueiro da família. Muitos acham que o grande amigo do meu pai era o David, banqueiro do Chase. Mas não foi ele.

Com Jânio, o embaixador retornou à posição de renegociador da dívida externa, com Jango assumiu o posto de ministro da Fazenda no gabinete de Tancredo Neves. E em 1964, no golpe militar?

Por essa época havia sido indicado embaixador junto à Comunidade Europeia e aceitou. Fomos para a França no início de 1964, ele já fora do ministério. Então quando vem o golpe militar, estávamos em Paris. Meu pai até voltava ao País, mas decidiu deixar a família longe daqui. Ele deveria enfrentar problemas com o regime, até por ter servido ao governo deposto, mas houve ali uma atuação decisiva da minha mãe. Ela se valeu de uma relação de parentesco com uma pessoa próxima do Castelo Branco e desse modo evitou-se uma cassação. Mais adiante, com Costa e Silva, teria havido outra tentativa contra meu pai e, segundo a história que ouvi de diferentes fontes, Delfim Netto foi quem teria demovido o general da ideia. (Solicitado a se manifestar, o ex-ministro da Fazenda confirma ter argumentado em favor de Moreira Salles, mas fez questão de ressaltar que "a sensatez final foi de Costa e Silva").

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