Emenda de Barbiere pagou empresa de irmã

R$ 140 mil foram destinados a obra em Valparaíso tocada pela Amplie Construções, de Elena Maria Barbiere e seu marido, Luiz Carlos Jorge

CHICO SIQUEIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO , ARAÇATUBA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h04

Recursos de R$ 140 mil de emenda do deputado estadual Roque Barbiere (PTB) foram parar nas contas da empreiteira de sua irmã e seu cunhado. A verba, usada na construção de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), no município de Valparaíso, foi repassada em 2007 para a prefeitura, que contratou a Amplie Construções e Serviços Ltda. para fazer a obra.

A empresa é de propriedade da irmã de Barbiere, a dentista Elena Maria Barbiere Jorge, e do marido dela, o engenheiro Luiz Carlos Jorge. A UBS, embora inaugurada em 2008, até hoje não entrou em funcionamento e ninguém na cidade soube dizer ao certo qual a modalidade de licitação foi usada para contratar a construtora.

Entre 2005 e 2008, a Amplie abocanhou R$ 1,4 milhão em obras realizadas em Valparaíso, cidade de 22 mil habitantes, na região de Araçatuba. A empreiteira construiu e reformou escolas, prédios esportivos, postos de saúde e até uma delegacia de polícia. O prefeito Antônio Gomes Barbosa (PTB), depois de perder a reeleição, foi contratado como assessor parlamentar de Barbiere.

Fora de padrão. O atual prefeito da cidade, Marcos Yukio Higuchi (PSDB) confirma que o repasse dos recursos foi feito por meio de emenda parlamentar apresentada pelo próprio Barbiere. Mas Higuchi se diz insatisfeito com a obra porque a UBS, embora tenha sido inaugurada em 2008, não foi entregue até hoje para a população por estar fora dos padrões exigidos. "Tivemos de entrar com uma ação para chamar a empresa de volta para refazer parte da obra", contou.

Segundo a secretária de Saúde de Valparaíso, Sérgia Marques, o prédio, construído na Vila Santa Rosa, foi condenado pelo Escritório Regional de Saúde (ERS) por conter infiltrações e problemas na rede de esgoto, além instalações inadequadas. "Para se ter ideia, havia sanitários sem rede de esgoto. Essas janelas que ainda ficaram também são inapropriadas. Mas agora estamos terminando de colocar o prédio em ordem para que ele possa receber os equipamentos e entrar em funcionamento", diz Sérgia.

A prefeitura, segundo Higuchi, foi obrigada a investir mais recursos para deixar o prédio em condições de dar atendimento à população. No total, a obra - que estava orçada em R$ 200 mil (R$ 140 mil do Estado e R$ 60 mil de contrapartida do município)- acabou custando R$ 366 mil.

Mas, ao fazer as modificações necessárias, a Amplie acabou deixando dívidas no município. Uma delas, de R$ 3,8 mil, com o construtor Márcio de Oliveira, contratado para fazer o serviço de pintura e impermeabilização das paredes que apresentavam infiltrações. "O Jorge, que sempre se apresentou como cunhado do Roquinho (Barbiere), deixou de pagar parte do meu serviço", disse. Segundo Oliveira, parte dos materiais usados para a reparação de serviços de esgoto foi comprada pela prefeitura.

A comerciante Sílvia Cristina Pereira também tenta receber dívidas deixadas pela Amplie. Dona da loja Eletro Hidráulica Pereira, Sílvia diz que Jorge deixou uma dívida de cerca de R$ 18 mil, referente à compra de materiais usados em obras feitas pela Amplie. "Ele ficou de pagar, mas não nunca mais voltou aqui", diz ela. "Pode ser que ele apareça, mas já faz alguns meses que não vem."

Mistério. Na Prefeitura de Valparaíso ninguém soube informar qual modalidade de licitação foi usada para contratar a empreiteira - se por carta-convite ou por tomada de preço. A modalidade de carta-convite é usada para contratações até R$ 150 mil, mas até 2008 muitos prefeitos usavam o expediente de decretar aditivos para obras que ficassem acima desse valor. O chefe de gabinete da prefeitura disse que o setor responsável não conseguiu localizar o processo de licitação da obra, mas o correto seria por tomada de preços.

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