Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Em reunião do PSDB, Alckmin critica Doria: 'Traidor eu não sou'

Tucanos discutiram em reunião depois que ex-prefeito cobrou mais verbas para candidatos que, como ele, vão disputar o 2º turno

Pedro Venceslau e Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 17h40
Atualizado 09 Outubro 2018 | 23h18

Dois dias após amargar o quarto lugar na corrida ao Planalto, o presidente nacional do PSDB, Geraldo Alckmin, criticou o candidato do partido ao governo de São Paulo, João Doria, durante reunião da Executiva Nacional da sigla, na tarde desta terça-feira, 9, em Brasília. Em áudio obtido com exclusividade pelo Estado, o ex-governador interrompe a fala de Doria por duas vezes. Na primeira, o chama de “Temerista” e, na segunda, insinua que o ex-prefeito o traiu: “Traidor eu não sou”, diz Alckmin. Procurado, Doria afirmou que não guarda “ressentimento”.

O ex-prefeito de São Paulo cobrava do partido mais ajuda financeira às campanhas dos candidatos a governos estaduais que passaram para o segundo turno – ele vai disputar o Palácio dos Bandeirantes com o sucessor de Alckmin no cargo, Márcio França (PSB).

“Não posso imaginar que um partido da dimensão do PSDB não tenha projetado a existência de um segundo turno, seja para Presidência da República, seja para os governos. Se não fez, errou”, diz, pouco antes da primeira intervenção de Alckmin. Ele cita as campanhas de Antonio Anastasia (MG) e Eduardo Leite (RS), para criticar a falta de repasses.

Em seguida, Doria continua sua fala e afirma que o partido deve se concentrar na eleição de seus seis representantes que passaram para o segundo turno. “Terminada a eleição, aí sim fazermos, de forma dedicada, uma avaliação completa sobre erros, acertos, sobre equívocos, pontos onde o PSDB não cumpriu seu papel. De uma forma mais incisiva, reconheço, mas não podemos fugir dessa avaliação. Teremos de fazer novamente”, afirma o ex-prefeito.

Nesse momento, Alckmin afirma a Doria: “O ‘Temerista’ não era eu não, era você”. E diz na sequência: “Você, você”, numa associação com o governo federal marcado pelo alto grau de impopularidade. Alckmin era contrário ao ingresso do PSDB no governo.

Doria rebate, dizendo que Alckmin estava diante de dois ex-ministros de Temer e que, por isso, não poderia desrespeitá-los. Ele cita o senador José Serra, que foi ministro das Relações Exteriores, e o deputado federal Bruno Araújo, que comandou a pasta de Cidades. Ambos fazem parte da Executiva. Também ressalta que o senador Aloysio Nunes segue no governo. “Vamos ter discernimento em relação a isso, calma e equilíbrio.”  Alckmin então diz: “Traidor eu não sou”. E outra pessoa, não identificada, completa: “Nem falso”.

Doria pede calma e equilíbrio

Sem alteração na voz, Doria pede novamente calma e equilíbrio. “Não vou entrar nesse mérito em respeito a você, mas volto a dizer que nós precisamos ter uma posição definida pelo partido para o segundo turno com os seis candidatos que aqui estão e que precisam do apoio para vencer as eleições. Geraldo, compreendo evidentemente sua situação e o ideal era que você pudesse ter vencido as eleições, não há dúvida, mas agora temos de preservar e salvar o PSDB nos seis Estados.”

Procurado, Doria disse que a discussão não vai abalar sua relação com o ex-governador. “Geraldo teve um momento de dissabor pessoal, da minha parte tem o meu perdão. Nada que possa abalar as nossas relações”, disse. “Quando se sai da campanha com resultado inesperado, isso abala emocionalmente, gera sofrimento pessoal”, emendou ele. “Minha manifestação não foi bem recebida, mas eu relevo.”

Ele estava ao lado do prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, que no dia da eleição pediu que Alckmin deixasse a presidência do PSDB. Ao ser questionado se também defendia a saída do ex-governador, Doria não respondeu.

Alckmin não quis pôr mais lenha na fogueira, mas também deu estocadas na direção de Doria. “Mario Covas já dizia que não se faz política pela imprensa”, afirmou. “Se outros fazem, eu não o farei.” 

Tesoureiro do PSDB rebate Doria

O tesoureiro do PSDB, deputado Silvio Torres (SP), rebateu as críticas de Doria, de que faltam recursos para o segundo turno da campanha no Estado. Segundo Torres, Doria recebeu cerca de R$ 8 milhões até o momento.

"Cada um dos candidatos poderia ter guardado seu recurso para o segundo turno e eles também dispõem de recursos próprios", afirmou sobre as reclamações. "Talvez ele (Doria) esteja se vendo com dificuldades para fazer o segundo turno."

Aliado do presidente da sigla, Geraldo Alckmin, Torres disse que os candidatos sabiam desde o início que o PSDB tinha R$ 210 milhões de verba eleitoral. Dos R$ 43 milhões que o Alckmin teria direito na disputa presidencial, segundo o tesoureiro, o tucano gastou apenas R$ 25 milhões e o restante foi distribuído entre as demais candidaturas, inclusive a de Doria.

 Em matéria publicada pelo Estado no início do mês, Doria aparece como líder entre os candidatos com déficit parcial da campanha acima de R$ 1 milhão, com R$ 6,1 milhões. Candidatos têm até 30 dias após a data da eleição para quitar dívidas e, nesse período, podem continuar arrecadando recursos exclusivamente para honrar os débitos. /JULIA LINDNER e VERA ROSA

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