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Em debate, ex-presidente do BC critica papel dos bancos públicos

Para Arminio Fraga, falta transparência no repasse de recursos ao BNDES; atual ministro defendeu modelo de atuação

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 19h44

Atualizada às 21h47

RIO - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso e czar da política econômica de um eventual governo do candidato Aécio Neves (PSDB), pontuaram suas divergências sobre a crise internacional, controle da inflação e papel dos bancos públicos, em debate nesta quinta-feira, 9, no programa da jornalista Míriam Leitão no canal por assinatura GloboNews. Temas quentes na campanha eleitoral, a independência do Banco Central (BC) e a política de reajustes do salário mínimo, ficaram de fora do debate.

Os dois economistas retrataram duas situações totalmente opostas na economia. Para Mantega, o Brasil resistiu à pior crise internacional dos últimos 80 anos, ainda assim gerando empregos e mantendo ganhos de renda, e, portanto, está preparado para entrar num novo ciclo de crescimento mais acelerado, prestes a chegar. “O crescimento da economia mundial vai ser de 3,3%. É um dos piores crescimentos”, afirmou Mantega, citando o Fundo Monetário Internacional.


De 2008 a 2013, a economia brasileira cresceu bem, na comparação com outros países, disse o ministro. “Entre o G-20, somos a sexta economia que mais cresceu”, completou. Segundo ele, nessa análise, o Brasil está atrás de China, Índia, Indonésia, Arábia Saudita e Turquia e empata com a Coreia do Sul.

“O problema é muito mais interno do que externo e ele vem piorando”, rebateu Arminio. Para o tucano, a inflação pressionada, mal controlada, num contexto de baixo crescimento econômico aponta para um “problema maior” na economia, que, portanto, precisa ter a “casa arrumada” para recuperar a capacidade de mobilizar capital e, então, voltar a crescer na casa de 4% ao ano.

“A crise já acabou há muito tempo. Não é a melhor recuperação da história, mas é uma recuperação. O Brasil está crescendo 2 pontos porcentuais por ano menos que a média da América Latina, há quatro anos”, criticou Arminio.

O ex-presidente do BC atacou também a atuação do governo no controle da inflação. “Inflação exige compromisso permanente para não deixá-la sair do controle. Como ela saiu, acho que vai ser preciso colocar a coisa no seu lugar”, disse Arminio, lembrando do represamento dos preços de tarifas.

“Temos uma pressão inflacionária um pouco maior este ano por causa da seca e da energia elétrica”, justificou Mantega. O ministro defendeu a estratégia do governo. “A inflação está sob controle. Faz 11 anos que cumprimos a meta de inflação”, disse o ministro, para então alfinetar: “Quando o Arminio era presidente do BC, ele pegou a inflação com 7%, em 1999, e entregou com 12%, em 2002”.

Os economistas também divergiram sobre a atuação dos bancos públicos. Banco do Brasil (BB), Caixa e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberaram mais crédito a partir da crise de 2008 e 2009.  “Entendo um banco público fazer programa emergencial, acho que isso é perfeito. O que eu não entendo é gastar dinheiro com a Petrobrás, com grandes empresas privadas, que têm acesso ao mercado. Acho que deveria ter mais critério”, afirmou Arminio, criticando também a falta de transparência na transferência de recursos para esses bancos, o BNDES sobretudo.

Mantega rebateu afirmando que os bancos públicos são bem geridos, com lucros e baixa inadimplência, e defendeu a atuação do BNDES. “Se não tivesse esse programa do BNDES, não teríamos conseguido fazer crescer o investimento em período de crise”, afirmou o ministro.

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