Em Cruzeiro do Oeste,mensalão passa batido

Em cidade em que José Dirceu se estabeleceu durante ditadura, caso tem pouco impacto às vésperas de ser julgado

DÉBORA ÁLVARES , ENVIADA ESPECIAL , CRUZEIRO DO OESTE (PR), O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h06

A vida pacata do município paranaense de Cruzeiro do Oeste, cidade em que o ex-ministro José Dirceu viveu clandestinamente por quatro anos, não se abala com a proximidade do início do julgamento do mensalão. Apontado como "chefe da quadrilha" por Roberto Jefferson, delator do esquema de compra de votos no Congresso, Dirceu é ilustre na cidade. No entanto, tão raro quanto encontrar quem não o conheça é achar quem acompanhe o assunto, saiba o que foi e se interesse pelo resultado do julgamento que começa daqui a 10 dias.

O que pode parecer normal para um município de 20 mil habitantes, surpreende pelo que a família Dirceu representa. A cidade serviu de abrigo para José Dirceu durante 4 anos (entre 1975 e 1979), quando viveu clandestinamente com o nome de Carlos Henrique Gouveia de Mello. Do relacionamento com Clara Becker, nasceu José Carlos Becker de Oliveira e Silva, conhecido como Zeca Dirceu, eleito duas vezes seguidas (em 2004 e em 2008) prefeito. Se ouve a história em todos os cantos como lenda.

Entre os que já ouviram falar do caso, é quase unânime a opinião da lisura e simplicidade do ex-ministro. Aos 80 anos, Mercedes Capuano está há 40 na cidade e é amiga da ex-mulher dele. Acompanha notícias do mensalão e também crê na inocência do ex-ministro. O dono da padaria vizinha à loja de confecção de Clara, José Schwerz, conhecido como Batata, compartilha da opinião. "Não acredito que tenha nada não. Se tivesse, Clara tinha falado. É uma pessoa muito correta".

O mensalão não deve ser tema da campanha eleitoral deste ano na cidade. Segundo o vereador Luis Gimenes (PTB), não há como o caso ser usado pela oposição, fraca na cidade, para enfraquecer a reeleição de Valter Pereira da Rocha. Valtinho, como é conhecido, fala com indiferença do tema e esperara pela absolvição de Dirceu: "Problemas de Brasília são muito distantes, não afetam a cidade".

Família. Mesmo às vésperas do que deve ser o maior julgamento da história do Supremo Tribunal Federal (STF), pessoas próximas ao ex-ministro destacam certeza em sua inocência. Zeca Dirceu nega que a possível condenação por formação de quadrilha e corrupção ativa tenha tirado o sono do pai.

Segundo afirma, tranquilidade é a palavra que o tem guiado. "Estive com ele faz mais de uma semana, ele está aguardando com serenidade, esperando justiça", falou no último sábado, na vizinha Cianorte. Atuante na região, Zeca participou da missa de aniversário do município ao lado do prefeito, Edno Guimarães, e do irmão dele, o deputado estadual pelo Paraná Jonas Guimarães, ambos do PMDB.

Embora confie nas provas, Zeca parece apreensivo. "Confiamos na capacidade do STF de julgar perante os autos e, se for assim, será pela absolvição", disse. "Para quem fala pouco, já falei demais".

O caso causa desconforto na neta de Dirceu, Camila Becker, de 17 anos. Segundo sua mãe, Joseane Ribeiro, teme-se a repercussão do caso na mídia. "A gente acredita que ele é inocente. Não posso acreditar que ele fez isso que o povo está acusando ele."

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