Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Em cidadezinhas onde Dirceu morou, mensalão não atrai interesse

Tema passa ao largo de conversas em Passa Quatro, onde Dirceu nasceu, e em Cruzeiro do Oeste, onde viveu quatro anos

Débora Álvares e Alfredo Junqueira, de O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h05

A vida pacata de Cruzeiro do Oeste, cidade do Paraná onde José Dirceu viveu clandestinamente por quatro anos, e de Passa Quatro, cidade mineira onde o ex-ministro nasceu e onde passou a semana passada ao lado da mãe, não se abala com a proximidade do início do julgamento do mensalão. Dirceu é ilustre em ambos os municípios. No entanto, tão raro quanto encontrar quem não o conheça é achar quem acompanhe o assunto, saiba o que foi e se interesse pelo resultado do julgamento que começa em 2 de agosto.

Em Cruzeiro do Oeste, com 20 mil habitantes, familiares do ex-ministro têm presença forte, principalmente política. A cidade serviu de abrigo para Dirceu entre 1975 e 1979, quando viveu clandestinamente com o nome de Carlos Henrique Gouveia de Mello. Do relacionamento com Clara Becker, nasceu José Carlos Becker de Oliveira e Silva, conhecido como Zeca Dirceu, eleito duas vezes (2004 e 2008) prefeito sob a sombra política do pai.

Na barbearia Edivaldo Ferreira Lima, o Baianinho, o mensalão só é asunto, afirma ele, quando Dirceu está na cidade e vai até lá atrás de seus serviços. Fora isso, ninguém toca no tema, diz ele.

O mensalão também deve ficar de fora da campanha de Cruzeiro do Oeste. Vice de Zeca e agora prefeito candidato à reeleição, Valter Pereira da Rocha, o Valtinho, fala com indiferença sobre tema: "Problemas de Brasília são muito distantes, não afetam a cidade".

Zeca Dirceu, hoje deputado federal, nega que a possível condenação por corrupção tenha tirado o sono do pai. Segundo afirma, tranquilidade é a palavra que o tem guiado. "Estive com ele faz mais de uma semana, ele está aguardando com serenidade, esperando justiça", disse no sábado, na vizinha Cianorte. Atuante na região, Zeca participou da missa de aniversário do município ao lado do prefeito, Edno Guimarães, e do irmão dele, o deputado estadual pelo Paraná Jonas Guimarães, ambos do PMDB.

Embora diga confiar numa absolvição, Zeca às vezes parece apreensivo. "Confiamos na capacidade do Supremo de julgar perante os autos e, se for assim, será pela absolvição. Para quem fala pouco, já falei demais".

No boteco. Em Passa Quatro, com pouco mais de 15 mil habitantes, as conversas nos botequins próximos à residência de dona Olga Guedes da Silva, de 92 anos, mãe do ex-ministro, nem resvalavam no assunto. "Esse negócio de julgamento a gente vê na TV, mas não é assunto nosso", afirmou Paulo Vieira, dono do botequim vizinho à casa de dona Olga.

"Conhecia o Zé quando morava na cidade. Depois, ele saiu e foi exportado para Cuba, né? Ele vem aqui de vez em quando. Mas eu não acompanho", disse o aposentado José Batista, 82 anos, sentado numa cadeira de madeira armada na principal avenida da cidade, alheio ao vistoso Toyota Rav 4 que saía da casa da vizinha, levando o ex-ministro embora, depois de sete dias na cidade.

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