Em carta, funcionário pede contrato de R$ 1,5 milhão

A carta a que se refere Massimo Giavina data de 4 de dezembro de 2002. É dirigida à Siemens, aos cuidados do delator do cartel, Everton Rheinheimer. Nela, em tom misterioso, o funcionário da Temoinsa Maurício Memória solicita a Rheinheimer que lhe envie um contrato de R$ 1,5 milhão. Giavina sugere que se tratava de propina.

O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h07

Dois e-mails relacionados à carta constam de documentação em posse do Cade. O primeiro, de 28 de outubro de 2002, é de Álvaro Colomer, da Temoinsa, para Rheinheimer. Colomer tratava de uma proposta referente ao interesse da Temoinsa em participar da reforma dos trens da série 2100 da CPTM - um dos projetos denunciados pela Siemens. Ele falava no pagamento de "comissão" a Rheinheimer. "A Temoinsa ofereceu a você em Madrid em relação ao contrato de 48 trens da série 2100: a) pagamento, pelo Maurício Memória (da comissão dele), de um total de R$ 1 milhão líquido, isto é, todos os impostos pagos por ele ou pela empresa dele; b) Pagamento pela Temoinsa Brasil/Espanha, de um total de R$ 1,5 milhão; c) os dois pagamentos a serem feitos de acordo com um calendário de pagamentos do contrato (60 meses) e obviamente ajustados de acordo com a fórmula de ajuste de preços do contrato."

Um mês depois, em 29 de novembro - cinco dias antes da carta enviada por Memória - Rheinheimer responde o e-mail de Colomer. "Decidimos aceitar sua oferta confirmada abaixo (referente à série 2100) e enviaremos nos próximos dias um esboço do contrato a ser assinado entre nossas empresas."

Não está claro por qual motivo Rheinheimer negociava o subfornecimento de um contrato que fora assinado três meses antes, em 28 de agosto, entre a CPTM e um consórcio formado pela Alstom e pela CAF, nem tampouco porque seria destinatário de uma "comissão".

Há uma divergência entre o que diz o Cade e o que diz a promotoria em relação à subcontratação no projeto da série 2100. No acordo de leniência firmado com a Siemens, o Cade diz que "o contrato do projeto S2100 foi adjudicado ao consórcio Consmac (Alstom e CAF), que contratou a Bombardier, a Temoinsa e a Mitsui como subfornecedores".

O promotor Marcelo Mendroni, autor de denúncias contra executivos do cartel, afirmou haver "equívoco" do Cade pois, segundo ele, as empresas subcontratadas foram a Tejofran e a T'Trans. A CPTM informou que a Temoinsa não foi subcontratada para reformar nenhuma das séries licitadas. O escritório Cordeiro Lima Advogados, que representa a Temoinsa, informou que está preparando a defesa e que ficará comprovada a idoneidade da empresa. Sobre a carta de Memória, os defensores anotaram que só irão se manifestar "no momento oportuno".

A Siemens afirmou que Rheinheimer "se desligou da empresa por decisão própria". Mas não respondeu se tinha por praxe cobrar comissão de fornecedores, nem se tinha ciência da carta de Memória. A advogada de Rheinheimer, Sylvia Urquiza, reagiu taxativamente à suspeita lançada por Massimo Giavina. Ela afirmou que a carta reflete "entendimentos comerciais entre as empresas" e que "a comissão ali mencionada seria devida à Siemens, e não ao Everton". "O contrato citado nunca chegou a ser assinado", disse. Sylvia desmontou a tese do empresário da T'Trans de que Rheinheimer teria sido demitido por causa da carta. "A carta data de 2002, Everton deixou a empresa apenas em 2007, em virtude de decisão pessoal, uma vez que, findo seu contrato de trabalho, decidiu não retornar para a matriz alemã pela qual era contratado"./ F.M. e F.G.

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