Aline Arruda
Aline Arruda

‘Em 68 sabíamos a palavra de ordem. Agora é fragmentado’, diz Cacá Diegues

Para cineasta, incertezas e complexidade da atual pauta de reivindicações são uma reação à 'simplificação do passado'

Entrevista com

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

24 Junho 2013 | 02h12

Diretor de filmes como A Grande Cidade e Bye Bye Brasil, Cacá Diegues é um dos grandes nomes do cinema brasileiro e também um pensador do País. Prestes a lançar um livro de memórias sobre o Cinema Novo, Cacá confessa-se um veterano de passeatas, como o apoio às Reformas de Base de Jango, a Passeata dos Cem Mil e a das Diretas-Já. Como muitos, ele se admira com o aspecto fragmentário das atuais manifestações e diz não saber aonde vai desaguar "um movimento que recusa se institucionalizar".

O que você acha desse movimento, que nasceu da insatisfação pontual com o aumento do transporte e tornou-se veículo de insatisfação generalizada?

O preço das passagens foi o pretexto para um movimento que aconteceria de qualquer maneira, fosse qual fosse o pretexto. Existe um mal-estar geral na sociedade ocidental e uma crise clara da democracia representativa. Estamos vivendo uma crise que, além de política, é comportamental. É normal que isso surja no seio da juventude, pessoas que não estão condicionadas por costumes e tradições da ação política partidária e totalizante, em nome de ideologias que só servem de pretexto às amarras do status quo.

O que acha da inclusão de pautas mais gerais, como repúdio à corrupção, ou conservadoras, como redução da maioridade penal, pelos manifestantes?

Tenho vários jovens amigos, inclusive minha filha, que participaram das manifestações desde o princípio e não se assustaram com a diversidade das pautas de reivindicações e cartazes expostos. Mais importante do que o que eles dizem é a noção de complexidade que se insere neles, como uma reação às simplificações do passado.

Qual a comparação possível entre as manifestações de hoje e as das décadas de 60, as Diretas-Já e as dos caras-pintadas?

Fiz meu "serviço militar" político desde a passeata contra o aumento dos bondes, com 16 anos. Fui à passeata pró-Jango na Central no 13 de março de 1963, fui "dispersado" na saída da Candelária depois da missa do estudante Edson Luis, estava na dos Cem Mil em 1968, na das Diretas-Já de 1984 e torci pelos caras-pintadas anti-Collor. Levei porrada da polícia do governador Carlos Lacerda, fui bem tratado pelo Exército sob comando do presidente João Goulart, corri e cheirei muito gás dos soldados da ditadura, me emocionei com a unidade democrática das Diretas-Já. Em cada ocasião, sabia direitinho qual era a palavra de ordem - muitas vezes única - que devia proclamar e gritar. Agora é diferente, é uma coisa de nosso tempo, fragmentária, pontual, comportamental, que não se explica pela adesão a um líder ou a um partido, que não tem uma palavra de ordem única e universal.

Acha que existem relações entre o que acontece no Brasil e movimentos do tipo Occupy Wall Street, o da Praça Tahrir ou o dos "indignados" espanhóis?

Acho que sim. Sobretudo pelo sentimento de ausência de representação da população pelos políticos, pelo desgosto com o "sistema" (por mais abstrato que seja o sentido da palavra) e pela farra sem-vergonha e desaforada dos poderosos, sejam de que partido forem. Estive no acampamento do Occupy Wall Street, em Nova York, e vi como eles se consideravam representantes dos "99% da população que não estão no poder".

Já existe gente que, no princípio, apoiou o movimento e agora teme pelos rumos tomados. Como você se posiciona sobre isso?

A grande incógnita é aonde vai desaguar um movimento que não deseja se institucionalizar, como se pode intervir na sociedade e no País sem uma institucionalização do movimento (se transformando num partido, por exemplo). Não sei como vão resolver isso. Talvez não seja mesmo para resolver nada.

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