Em 4 décadas, Alves consolidou perfil de articulador político

Deputado peemedebista que deve comandar a Câmara tem no currículo denúncias e a fama de atuar nos bastidores

BRUNO BOGHOSSIAN / SÃO PAULO, DÉBORA ÁLVARES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h05

Em 42 anos de atividade parlamentar na Câmara, acumulados em 11 mandatos consecutivos, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) passou a se dedicar quase exclusivamente à articulação política nas últimas duas décadas. O deputado, com bom trânsito do PT ao DEM, carrega no currículo, além da fama de excelente articulador nos bastidores, denúncia de enriquecimento ilícito e suspeitas de favorecimento ilícito de aliados com verbas públicas.

Alves apresentou 233 projetos de lei "relevantes" no Congresso, segundo sua equipe - 215 deles entre 1971 e 1995, versando principalmente sobre leis trabalhistas e educação. Nos 17 anos seguintes, no entanto, dedicou-se mais à vida partidária e às negociações com colegas de Casa.

Dos três projetos de sua autoria que se transformaram em lei ao longo de quatro décadas na Câmara, dois versavam sobre a legislação eleitoral.

Um dos textos, assinado em coautoria com líderes de outras legendas, em 2007, aumentou de 1% para 5% a fatia do Fundo Partidário que era dividida igualmente entre todas as siglas registradas no País. Outro projeto, também elaborado em conjunto, em 2009, flexibilizou a propaganda eleitoral antecipada e proibiu o uso de montagens no horário eleitoral gratuito.

Nos últimos quatro anos, apresentou três propostas que diziam respeito à própria classe. Uma delas permitiria que deputados participassem de duas comissões simultâneas. Outra autorizaria a propaganda eleitoral na internet. A terceira evitaria que os partidos perdessem tempo de TV e recursos do fundo partidário para novas legendas.

A atividade legislativa de Alves também se caracterizou pela atenção que deu ao Rio Grande do Norte, que sonha governar. Em 2011, apresentou projeto de lei para dar o nome de seu pai, Aluizio Alves, ao Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, em construção na região metropolitana de Natal.

O peemedebista também se vangloria por ter destinado "perto de mil" emendas e convênios a favor de seu Estado nos últimos dez anos. "Se for pensar nos valores daquilo que obtive, dá milhões", disse na última terça-feira. As recentes denúncias de direcionamento de emendas parlamentares de sua autoria para a empresa de um ex-assessor, contudo, reascenderam a ideia de que o parlamentar reúne os maus hábitos que tornaram negativa a fama do Legislativo.

"É o protótipo do político conciliador, que agrada quem está no poder, não um questionador", avaliou o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ).

Além da influência política que exerce no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), ligado ao Ministério da Integração Nacional, Alves também tem trânsito livre nos ministérios comandados pelo PMDB (Agricultura, Previdência Social, Minas e Energia e Turismo, além da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República).

"Não conheço quem fale tanto no celular quanto ele, principalmente com prefeitos e vereadores do Rio Grande do Norte", conta um colega de Câmara.

Oligarquia. Alves é membro de uma das duas principais oligarquias do Rio Grande do Norte (a outra são os Maia). O pai, ex-governador e ex-ministro Aloísio Alves, foi cassado pelo Ato Institucional nº 5. O primo, Garibaldi Alves Filho, ministro da Previdência Social desde o início do governo Dilma Rousseff, chegou ao cargo a partir de negociações lideradas pelo deputado.

A influência da família no Estado contribui para a caracterização dele como um político antiquado. "Existe hoje uma atração irresistível por estar bem com o Executivo. Por isso, muito provavelmente, ele será eleito", acrescenta Chico Alencar.

Nos últimos 20 anos, teria atuado como um "operador" que trabalhava na retaguarda dos peemedebistas Garibaldi Alves Filho, Geddel Vieira Lima e, por último, de Michel Temer. Foi ao lado deste que ganhou maior projeção.

Escândalos. Alves tentou ser vice na chapa de José Serra à Presidência em 2002. Na época, porém, a ex-mulher, Mônica Infante de Azambuja, o acusou de manter US$ 15 milhões em contas bancárias não declaradas no exterior. Há dois meses ele conseguiu adiar a decisão sobre a quebra de sigilo fiscal e bancário.

No ano passado, o Estado revelou que o deputado fez lobby no Tribunal de Contas da União para que um de seus sócios conseguisse o contrato de concessão da BR-101, entre o Espírito Santo e a Bahia. O negócio envolve cerca de R$ 7 bilhões. Apesar das denúncias, Alves segue favorito e deve se eleger.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.