Elite belorizontina diante do escândalo do mensalão

Das altas rodas da sociedade da capital mineira ao presídio da capital federal

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h06

BELO HORIZONTE - "Em Minas se admite de tudo, menos escândalo." A frase já foi atribuída tanto a Pedro Aleixo, da UDN (antigo partido conservador) quanto a Último de Carvalho, do PSD (principal rival da UDN, também extinto). O que só atesta a sua abrangente verdade. Em sua folclórica discrição, muitos mineiros estão abalados com o escândalo do mensalão, que tem em Belo Horizonte a maior concentração de envolvidos.

A ex-herdeira e presidente do liquidado Banco Rural Kátia Rabello e os publicitários Cristiano Paz e Ramon Hollerbach eram pessoas bastante queridas na alta sociedade de Belo Horizonte. O deputado Romeu Queiroz também circulava bastante. Já Marcos Valério Fernandes de Souza costuma ser descrito como "frio", muito mais focado em ganhar dinheiro do que em transmitir afeto. "Ele não dava beijos quando encontrava as pessoas", definiu uma mulher com trânsito intenso na alta sociedade.

"As condenações e as penas não são questionadas", observa Raquel Faria, colunista social do jornal O Tempo. "Mas as pessoas já os perdoaram. Eles vão cumprir suas penas e depois podem voltar à sociedade. As penas são rigorosas. É suficiente. Não é preciso linchá-los."

Duas pessoas que estiveram há um ano com Kátia Rabello contaram ao Estado terem saído com a impressão de que "nem passava pela cabeça dela que seria presa". Kátia chorou durante a reunião, por causa do impacto do escândalo sobre o banco, herdado do pai. Mas disse que tinha planos de, "depois da absolvição", mudar o nome da instituição financeira e relançá-la com uma campanha publicitária.

Cotidiano. Nestes últimos anos, os envolvidos no processo do mensalão recuaram um pouco do convívio social, mas não desapareceram. Há um ano, já condenado, Cristiano Paz estava com a mulher, Maria Tereza, uma ex-modelo, na fila de espera do restaurante italiano Provincia di Salerno: não se preocupou em ligar para reservar antes uma mesa ao fundo, por exemplo, para escapar do contato. Hollerbach continuou frequentando a padaria Casa Bonomi, na Savassi, região de classe média de Belo Horizonte. Romeu Queiroz não deixou de ir aos sábados ao Rei da Feijoada, no Mercado Central. Nenhum deles era hostilizado nos lugares aonde iam.

Condenada a 16 anos de prisão, dos quais deverá cumprir um sexto (dois anos e cinco meses) em regime fechado, Kátia, de 56 anos, é, de todos, quem atrai mais compaixão. O banco tinha um histórico de escândalos, desde a época do governo do ex-presidente Fernando Collor. Mas Kátia estava distante nesse período, tendo assumido a presidência do banco da família somente depois de estourar o mensalão, levada pelo acaso. Sua irmã, Júnia, que era vice-presidente do banco e estava sendo preparada para suceder o pai, Sabino, morreu em acidente de helicóptero em 1999.

Sabino então voltou para a presidência, colocando o executivo José Augusto Dumont na vice e Kátia no conselho do banco. Em 2001, Sabino inverteu as posições: a filha foi para a vice-presidência e ele assumiu o conselho. A ideia era que Dumont assumisse a direção operacional do banco. Entretanto, ele morreu em acidente de carro em 2004. Em junho do ano seguinte, um mês depois de estourar o escândalo do mensalão, Sabino morreu. Kátia, bailarina, que tinha uma companhia de dança chamada Primeiro Ato, visivelmente não pertencia ao mundo financeiro. "Ela não teve tempo de entender o que se passava", observa uma pessoa que prestou serviço durante muito tempo para o banco. "O banco estourou nas mãos dela. Se queriam pegar um banqueiro, pegaram a pessoa errada." Segundo ele, Kátia não tinha envolvimento com as operações do banco.

Encargos. O mesmo é o que se diz sobre Paz e Hollerbach com relação às operações financeiras da agência de publicidade SMPB, que estavam a cargo de Marcos Valério. Paz cuidava da criação e Hollerbach, da produção. Condenados a quase 26 e a 29 anos de cadeia, respectivamente, ambos eram bastante respeitados no meio. De acordo com o publicitário Hélio Faria, presidente do Conselho de Comunicação de Minas Gerais, que reúne 39 entidades de classe, a SMPB, assim como a DNA, outra agência envolvida no escândalo, da qual Marcos Valério também era sócio, "estavam entre as melhores e maiores do Brasil".

Com o escândalo, diz Faria, todos os contratos do governo federal com agências de publicidade de Minas, que somavam entre seis e sete, foram cancelados. "Minas é hoje praticamente o único Estado que não tem nenhuma conta do governo federal", acredita ele. Mesmo assim, Paz abriu, com o filho João, uma nova agência, chamada Filadelfia, que se tornou a mais premiada do Estado. Com o escândalo, o publicitário de 61 anos, antes conhecido pelo gosto por motocicletas, passou a frequentar grupos evangélicos de oração com a mulher, Maria Tereza.

Mais discreto, Hollerbach não frequentava as colunas sociais. Hoje com 65 anos, ele deve cumprir ao menos seis anos no regime fechado. "Ele não vai resistir a isso", teme seu advogado, Hermes Guerrero. Professor de direito penal na Universidade Federal de Minas Gerais, Guerrero considera o mensalão um "caso único", pela sua dimensão. "Havia uma cobrança muito grande da opinião pública", avalia ele. "Collor e todos os políticos que passaram ali tinham sido absolvidos." Mas ele reconhece: "Não tenho dúvida de que daqui para a frente acabou essa história de que gente importante não vai presa."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.