Fábio Bouzas/Estadão
Fábio Bouzas/Estadão

Eleitos pelo PSL na Bahia promovem ato com pregação de bispo batista

Religioso é acusado pelo grupo Tortura Nunca Mais de ter sido um torturador durante a ditadura; Átila Brandão nega e processa o grupo

Yuri Silva, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2018 | 23h14

SALVADOR - O domingo, 14, exatamente uma semana após o primeiro turno das eleições 2018, foi dia comemoração para os três bolsonaristas eleitos pelo PSL na Bahia. Em frente ao Farol da Barra, um dos principais pontos turísticos de Salvador, a trilha sonora do trio elétrico prenunciava o motivo da reunião de cerca de 400 pessoas vestidas de verde e amarelo em plena orla marítima da capital baiana.

"Vai cair na marreta do 17, mito, mito", dizia a letra da canção que, em ritmo de pagode, embalava o público, em referência ao número de urna do candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e ao seu apelido de "mito", alcunhado por militantes.

A empreendedora Talita Oliveira e o capitão da PM Alden José, eleitos para Assembleia Legislativa da Bahia com 26 mil e 39 mil votos respectivamente, e a professora Dayane Pimentel, quinta deputada federal mais votada do Estado este ano, com 136 mil votos, engrossavam as fileiras da manifestação e eram o centro das atenções.

Durante o evento, falou em tom de oração aos bolsonaritas presentes, como convidado da organização, o bispo da Igreja Batista Átila Brandão, acusado de ser torturador no período da ditadura militar, quando era oficial da PM da Bahia e atuava no Quartel dos Dezenzeiros, em Salvador. O bisco nega as acusações e processa o grupo Tortura Nunca Mais e o jornalista Emiliano José, que escreveu sobre as acusações. Brandão chegou a entrar col uma queixa-crime contra as acusações. 

"Deus todo poderoso vai abater essa petralhada e levantar o capitão", clamou Brandão, de cima do trio elétrico, dizendo na sequência que "a Bahia e Salvador são do senhor" e que "Deus tem um projeto para essa terra". 

Até a divulgação do resultado do pleito completos desconhecidos, os deputados eleitos foram ovacionados com aplausos na chegada ao Farol e passaram a manhã tirando selfies com admiradores. Dayane, que preside o PSL no Estado desde que Bolsonaro entrou no partido e chegou a ser cotada para ser candidata a vice-presidente na chapa do capitão reformado, foi recebida como "a mulher mais votada da história da Bahia", nas palavras dos militantes que se revezavam ao microfone no trio elétrico.

O sucesso da campanha silenciosa dos três, feita prioritariamente nas redes sociais mirando o eleitor conservador e beneficiada pela onda bolsonarista que tomou conta do País, aumentou a bancada do partido de zero para três parlamentares na Bahia. O partido até tinha alguns meses atrás deputados eleitos em 2014, mas eles deixaram a sigla após a guinada à direita.

A tropa de choque bolsonarista, que entrou para a política após as manifestações de rua que impulsionaram o impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff (PT), agora promete retribuir a confiança do eleitor. "Aqui agora tem comando, não vai mais ser terra de PT", avisou Talita Oliveiea, de cima do trio.

Formada em gestão pública e consultora de novos empreendedores, a jovem soteropolitana de 33 anos dava ali a senha para os discursos que se sucederiam pela manhã. Críticas duras ao PT, pregação religiosa sobre a família e defesas "do fim do marxismo cultural" foram revezadas com pedidos de "atenção à doutrinação que a esquerda está fazendo com nossas crianças nas escolas" em falas seguintes.

A presença feminina, alertou um dos comandantes do microfone, era "a prova de que Bolsonaro não é machista, misógino, como eles gostam de mentir e caluniar". Uma advogada também se apresentou ao público como voluntária a ajudar judicialmente àqueles militantes que foram chamados de racista, nazista ou fascista por eleitores petistas.

Condenada pela Justiça Eleitoral durante a campanha por chamar o governador da Bahia Rui Costa (PT) de chefe de quadrilha, Dayane Pimentel aproveitou sua fala, em seguida, para reafirmar as acusações. "Mil vezes quadrilha. O líder dele está preso, o meu líder acabou de sair de um hospital". E garantiu aos admiradores que seguirá a mesma linha de atuação de Bolsonaro no Congresso Nacional. "Meu compromisso em Brasília vai ser marretar essa esquerdalha", prometeu a professora, que até 2010 era petista.

Ela admite que votou duas vezes no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e uma em Dilma Rousseff para a Presidência da República. "Eu já acreditei no PT, mas estou curada e estou habilitada a curar muito mais gente", garantiu a pupila do presidenciável do PSL, não sem antes de dirigir aos eleitores não convertidos.

"Quero dizer a quem não votou em mim por causa dos fakes news que eu perdoo vocês", afirmou, dizendo que não teve mais votos porque foi alvo de calúnias de "inescrupulosos que seguem (Fernando) Haddad (candidato do PT)".

Há quatro anos militando pró Bolsonaro, Dayane tornou-se amiga pessoal do capitão da reserva e só não foi candidata a vice-presidente porque não tem a idade mínima de 35 anos para o cargo. Nascida em Feira de Santana, maior município do interior baiano, ela era considerada o tipo ideal para o posto, por ser mulher e nordestina.

Diante da impossibilidade legal, acabou, contudo, disputando uma vaga na Câmara dos Deputados. A votação expressiva, apesar do anonimato, ela atribui ao padrinho político. "Claro que foi por causa da onda Bolsonaro", admite a dirigente do PSL, que se apresenta como "mulher ilibada, cristã, mãe de família, filha de negros" e diz que "nunca precisou de cotas para entrar na universidade pública", onde estudou Letras Vernáculas.

Diferente dela, além da onda bolsonarista, Talita Oliveira e Alden José atribuem seus desempenhos eleitorais ao trabalho desenvolvido nas redes sociais. "Venho há muito tempo defendendo um pensamento conservador, defesa da família, então é um trabalho que vem sendo feito aos poucos", afirma o capitão da PM, mas que também não deixa de reconhecer a influência do presidenciável na sua votação. "Não surgimos do nada, mas esse simbolismo foi decisivo", pondera ele, frisando que tem 400 mil seguidores nas redes sociais.

Talita, que se define como "a prova viva de que Bolsonaro não é machista", afirma que seu mandato servirá para "renovar a esperança por uma Bahia melhor, como um novo começo". Ela disse que resolveu entrar na política porque "não aguentava ver as pessoas sentadas no sofá reclamando sem fazer nada". A decisão foi tomada na época do impeachment, há dois anos, desde quando ela vem sendo mais ativa nas mídias digitais com esse objetivo.

As críticas a Bolsonaro, ela, como os outros dois correligionários eleitos, ignora. "Ele é um homem de bem, bem intencionado, que vai mudar o Brasil", garante. O discurso é repetido por Dayane, que fala com veneração do candidato ao Palácio do Planalto.

Sobre a presença de um homem acusado de tortura no ato que comemorou sua eleição, a deputada federal eleita foi evasiva. Questionada se não ficava constrangida, respondeu: "O que me deixa constrangida é ver um ex-presidente preso acusado de corrupção, de roubar. Conheço Átila como um pastor que faz bem a muita gente".

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