Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Eleitoras dizem que não se sentem representadas

Na véspera do protesto 'Mulheres contra Bolsonaro', as quatro candidatas a vice-presidente nas eleições 2018 se reunirão para um debate sobre a participação feminina

Pedro Venceslau e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2018 | 05h00

Na véspera do protesto “Mulheres contra Bolsonaro”, marcado para sábado, 29, em várias cidades do País, as quatro candidatas a vice-presidente nas eleições 2018 se reunirão para um debate sobre a participação feminina na política no qual serão apresentados os resultados de uma pesquisa sobre o tema.

O evento ocorre no momento que as senadoras Ana Amélia (PP) e Kátia Abreu (PDT), a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB) e a líder indígena Sônia Guajajara (PSOL) intensificam a campanha contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), que é criticado por declarações machistas e misóginas.

Segundo os dados do Instituto Locomotiva, que fez a pesquisa e organizou o debate, 94% das mulheres não se sentem representadas pelos políticos, enquanto 72% afirmam se interessar em algum grau por política.

Temas

O estudo também mostra que 43% das trabalhadoras brasileiras dizem que já sofreram algum tipo de preconceito ou violência no trabalho e apresenta dados sobre a distorção de salários entre e homens e mulheres.

O tema ganhou destaque na campanha após as pesquisas indicarem forte resistência do eleitorado feminino contra Bolsonaro. Na mais recente pesquisa CNI/Ibope, o índice de rejeição ao deputado do PSL chegou a 50% entre as mulheres.

O Ibope também mostrou que 11% do eleitorado feminino está indeciso e 14% deve votar branco e nulo – ante 4% e 9% dos homens, respectivamente.

Para a pesquisadora de gênero da ciência política da USP, Gabriela Rosa, as mulheres se sentem pouco representadas, porque há poucas mulheres nas instâncias de poder.

“Quanto menos há mulheres com suas experiências e interesses representados, fica até difícil ter políticas públicas voltadas para elas”, explicou.

Segundo contou, ainda, é a primeira vez que se vê nas eleições “o gênero como uma clivagem tão fundamental”. O motivo para isso, disse, é o crescente discurso que contraria direitos políticos e civis das mulheres, como por exemplo a igualdade salarial. Para realizar uma mesma função, uma brasileira recebe, em média, 24% que um brasileiro.

A questão da desigualdade salarial foi abordada durante toda a campanha, principalmente, porque o primeiro colocado na disputa eleitoral, Jair Bolsonaro (PSL), disse que o tema já está resolvido nas leis trabalhistas. A participação das mulheres nesta eleição será decisiva, segundo analistas ouvidos pelo Estado.

"Tenho a impressão de que as mulheres se mobilizaram menos para eleger a primeira presidente mulher (Dilma Rousseff), do que para dizer não ao Bolsonaro neste ano. A questão de gênero parece estar mais forte neste ano do que nas outras", disse o professor de ciência política da USP, Glauco Peres.

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