Eleitor teve de ajustar sonho à realidade

Eleitor teve de ajustar sonho à realidade

Escolha de grupo, selecionado com base em pesquisas do Ibope, estava em qual dos candidatos faria mais pelo social ou pela economia

Lourival Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2014 | 22h52

 Dilma Rousseff pavimentou sua vitória arrebatando votos de Aécio Neves no primeiro turno, reconquistando pessoas que pretendiam inicialmente votar nela, mas acabaram optando por Marina Silva, e atraindo os simpatizantes de Luciana Genro, do PSOL.

O Estado ouviu pela terceira vez os mesmos eleitores de seis cidades - Manacapuru (AM), São Vicente Ferrer (PE), Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo e Machadinho (RS) - nas cinco regiões do País, que havia entrevistado em maio e em setembro. 


Escolhidos com base em pesquisas do Ibope, segundo faixas de renda, grau de escolaridade e locais de alta concentração de eleitores com perfis determinados, eles compuseram o mosaico de opções políticas do Brasil, preenchendo, com suas histórias reais, os números resultantes das pesquisas. 

As declarações descrevem o percurso seguido por esses eleitores, da tentativa de buscar uma alternativa à polarização entre as legendas PT-PSDB, à exigência, imposta pelo resultado do primeiro turno, de adaptar seus sonhos à realidade. 

SEM PROVAS________________________________________

Quando falou pela primeira vez ao Estado, em maio, Edcarlos Magalhães, de 33 anos, dono de uma joalheria em Manacapuru, no Amazonas, disse que votaria em Dilma Rousseff, porque as políticas do governo, incluindo o Bolsa Família, incentivavam o consumo e ajudavam seus negócios. 

Na reta final do 1.º turno, Magalhães, indignado com os escândalos de corrupção, mudou para Marina Silva: “Um monte de bomba, mensalão, um monte de fraude do PT”, enumerou.

No 2.º turno, o comerciante voltou para Dilma. “Ela fez um trabalho bom”, ponderou. “Teve esse escândalo da Petrobrás. Não comprovaram que ela está no meio”, argumentou. “Se for trocar o certo pelo duvidoso, o Aécio não fez governo bom, tanto que perdeu em Minas. E tem a história do aeroporto, que quem tem a chave para abrir é o tio dele”, continuou Magalhães, referindo-se às denúncias em torno da desapropriação na cidade mineira de Cláudio. 

“Não provaram que a Dilma tem parentes trabalhando no governo”, considerou o comerciante. “O Aécio tem vários parentes: primo, irmã.” Além disso, pesou a certeza que tina na vitória de Dilma. “Aqui no Amazonas, a maioria é petista. Tanto que, na eleição do Lula, a vitória foi aqui.”

CONSISTÊNCIA_______________________________________

Formada em educação física e professora em uma academia de ginástica em Goiânia, Beatriz de Almeida Prado, de 21 anos, votou em Luciana Genro, do PSOL, no primeiro turno. Em maio, ela manifestava preocupação com questões de orientação sexual e de gênero e, embora simpatizasse com Eduardo Campos, considerou que Marina, sua sucessora na candidatura, “cedeu muito rápido a pressões”. Beatriz achou Luciana “mais consistente”. 

Ontem, votou em Dilma: “O Aécio não tem um plano de governo que me agrade. A Dilma também não, mas, dos males, o menor”.

ECONOMIA__________________________________________

“Acho que com o PT a economia está muito em baixa”, disse Izabela Trigueiro, estudante de Direito de 27 anos, ao explicar porque votou ontem em Aécio. Dona de um stand de bijuterias, relógios e acessórios, em uma galeria no centro de Belo Horizonte, ela contou que a situação “afeta muito” seus negócios. 

“Está todo mundo reclamando no comércio em geral, principalmente em relação às vendas no ano passado e retrasado”, comentou Izabela, que também trabalha com eventos. “Está estagnado. Tem de mudar”, continuou ela. “A gente está sem opção. Não teve bons candidatos dessa vez. Queria Marina, mas ela não foi para o 2.º turno. Vou de Aécio para ver se acontece alguma coisa.” Em maio, antes de se definir por Eduardo Campos e depois por Marina, Izabela enfatizava que queria mudança.

CORRUPÇÃO_________________________________________

Roberto Alves, de 57 anos, dono de um stand de roupas na mesma galeria, também saiu de Marina e foi para Aécio em busca de mudança. Sua principal preocupação é com a corrupção. “Até que em outras partes, não tenho nada a reclamar”, reconhece o comerciante. “Mas vamos ver se pode melhorar alguma coisa nesse aspecto.” Pouco antes do primeiro turno, em setembro, ele estava indeciso entre Marina e Aécio, e já dizia: “O problema da Dilma foi muita corrupção e roubo”.

PROPOSTAS__________________________________________

Outro mineiro que votou em Marina no primeiro turno e agora preferiu o ex-governador de seu Estado foi Marcos Antonio da Silva, de 42 anos, que trabalha em uma barraca de aves no Mercado Municipal. “Acho que a proposta dele está melhor um pouquinho”, avaliou Silva, que havia votado em Dilma em 2010. “A Dilma ficou batendo na mesma tecla nos debates. O PT já está lá há 12 anos. Vamos ver se muda um pouco. E tem outra coisa: o Aécio é mineiro, né?” 

Em maio, o feirante reclamava da inflação, e da falta de poder aquisitivo de seus fregueses para que ele pudesse acompanhá-la, aumentando os preços dos frangos que vende no mercado.

MUDANÇA___________________________________________

“Acho que está na hora de dar uma mudada”, declarou Isaac Ruas, de 63 anos, dono de uma pousada no balneário de Machadinho, norte do Rio Grande do Sul. Ele havia votado em Marina no primeiro turno na expectativa de que seu vice, Beto Albuquerque, por ser gaúcho, desse atenção ao Estado, por exemplo pavimentando a estrada de 27 km que liga a cidade a São José do Ouro, no sul de Santa Catarina, para ajudar no escoamento da soja e do milho produzidos no município.

“Se eu votar na Dilma, estou autorizando essa roubalheira, essa vergonha que está aí, a continuar”, analisou Ruas, que repetiu um argumento dado em sua primeira entrevista ao Estado, em maio: Dilma “perdeu seu voto” quando se opôs à redução da maioridade penal. “Hoje só quem mata é gente de 16, 17 anos”, observa o empresário. 

Machadinho é uma cidade tranquila, mas ele tem uma filha em Florianópolis e outro em Erechim (RS). “Quando deito, rezo para Deus ajudar”, afirma ele. “Dilma não fez nada pela segurança pública. Pessoas jovens estão morrendo nas mãos desses marginais.” Ruas reconhece: “Não é que esteja tudo ruim. Tem coisas boas que Lula e ela fizeram. Mas perderam a credibilidade comigo quando não aprovaram essa lei”.

ALTERNATIVA_______________________________________

Em São Paulo, os eleitores das classes A/B, majoritariamente tucanos ou antipetistas, que buscaram uma alternativa em Marina, agora se voltaram para o PSDB. “Na Dilma, não votaria em hipótese alguma”, descartou Alex Paulucio, de 23 anos, que trabalha com moda. “Em qualquer pessoa que se candidatasse que não fosse ela eu votaria. A política do PT não condiz com a minha ideia de país.”

A maior razão, diz ele, é o “monte de benefícios” sociais. “Em vez de dar benefícios, deveriam antes de tudo investir esse dinheiro na criação de empregos diretos e indiretos e em educação”, opina Paulucio. “Acho, também, que a economia vai melhorar com Aécio.” Ele preferia Eduardo Campos a Marina, pela experiência do ex-governador de Pernambuco. Antes do 1.º turno, Paulucio, que votara no passado no PSDB e no PMDB, explicava assim seu voto em Marina: “O Brasil no momento precisa de alguém novo”.

DESILUSÃO__________________________________________

Bruna de Leo, economista de 31 anos, que trabalha na tesouraria de um banco em São Paulo, está entre os muitos eleitores desiludidos com a política. Ao longo do ano, considerou que nenhum político era “digno de seu voto”, e pensou seriamente em anular. Na última hora, decidiu-se por Marina. Ontem, votou em Aécio. “Não suporto o PT. Quero essa mulher fora do governo”, explicou Bruna, referindo-se a Dilma. “Estava desanimada com políticos tradicionais, mas agora é questão de vida ou morte. No 1.º turno, fui de Marina para tirar a Dilma porque achei que o Aécio não tinha chance.”

EXCLUSÃO__________________________________________

“Não sendo PT, está bom”, disse Marcos Sérgio Cavalheiro, estudante de contabilidade de 27 anos, que vende bordados em Goiânia. Ele havia votado em Marina no primeiro turno, em busca de mudança: “Pior do que está, não fica”. 

VOTO CASADO_______________________________________

Quando falou pela primeira vez ao Estado, em maio, o taxista Alfredo Antonio da Silva, 46 anos, de Goiânia, declarou: “Não votei na Dilma na primeira vez nem vou votar na segunda, porque não está dando certo”. Suas principais preocupações eram com criminalidade e saúde. Ele ainda não tinha candidato, na época, mas disse que, se um general se candidatasse, votaria nele: “Tem medo de ditadura quem faz coisa errada”.

Silva se definiu depois por Eduardo Campos. Com sua morte, voltou a ficar indeciso, porque considerou que Marina não o substituía. No primeiro turno, ficou com Aécio. 

De lá para cá, três coisas o fizeram mudar de opinião: o fato de Aécio ter perdido em Minas, a rejeição ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e os pedidos de Iris Rezende, candidato do PMDB ao governo para que votassem em Dilma. 

“Falaram como foi o Aécio em Minas, um ditadorzinho igual o Perillo aqui, que fala para as prefeituras, que se não o apoiarem, vai ser um massacre”, disse o taxista. “Sou Iris desde nenezinho. Se o Iris ganhar, vai ser melhor para Goiás se a Dilma estiver lá. Espero que ela faça bem mais do que fez.”

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