Eleitor procura candidato conhecido que traga renovação

Depoimentos demonstram que paulistanos querem prefeito que tenha passado limpo e cumpra promessas

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h13

A primeira pergunta que o Estado fez aos eleitores que ouviu em 7 bairros de São Paulo nas duas últimas semanas foi: "O que é mais importante para você na hora de escolher um candidato a prefeito?" Com pequenas variações, todos responderam a mesma coisa: que tenha um passado limpo e que cumpra as promessas. Esse ponto de partida parece tão vago quanto óbvio. Mas, no desenrolar da conversa, ele se revela determinante: o eleitor votará em um candidato cujo passado ele conhecer, e aprovar.

Apenas dois candidatos são conhecidos da maioria dos eleitores: Celso Russomanno e José Serra. Dos 52 eleitores, 8 disseram que votarão em Russomanno e 5, em Serra, enquanto 24 não sabem e 6 pretendem anular o voto. As pesquisas quantitativas dão resultados um pouco diferentes, o que é natural. Esta não é uma pesquisa quantitativa. É uma reportagem focada em cinco bairros que têm oscilado entre o PT e seu adversário ao longo das últimas eleições, além de um bairro consistentemente antipetista, Moema, e um petista, Itaim Paulista. Não é um check-up completo, mas uma tomada do pulso da cidade.

Os números são menos importantes, neste caso, do que o que é dito, mas eles ainda escondem dados reveladores: dos 24 que não sabem, 4 costumavam votar no PSDB e outros 3 são antipetistas. Mesmo assim, ou não votarão ou não sabem se votarão em Serra. Outros 5 costumavam votar no PT, mas não sabem quem é o candidato do partido ou sabem mas não confiam nele. Dentre os 8 que pretendem votar em Russomanno, 2 costumavam votar no PT.

Nenhum dos eleitores que disseram que votarão em Serra o fará pela primeira vez. São pessoas que se mantêm fiéis às ideias do PSDB em geral e a Serra em particular. Em contrapartida, três coisas parecem pesar mais contra Serra, de acordo com as entrevistas feitas pelo Estado: o fato de ele ter abandonado a Prefeitura um ano depois de assumi-la, em 2006, para disputar a eleição para governador; a frustração com as promessas não cumpridas; e o desejo de renovação. Num certo sentido, as duas primeiras coisas parecem juntar-se na cabeça de vários eleitores, e levá-los à terceira delas: o abandono da Prefeitura foi o descumprimento de uma promessa, e só quem nunca governou não decepcionou ainda.

A estudante de veterinária Jéssica Justino, de 23 anos, votou em Geraldo Alckmin para governador e em Serra para presidente. "Mas não gosto dele para prefeito porque ele nunca termina o mandato", disse Jéssica, que mora em Pirituba, na zona norte. "Vou votar naquele branquinho de cabelo preto que fala que quer melhorar São Paulo", continuou a moça, referindo-se a Gabriel Chalita. "Eu o vi na TV. Gostei das propostas dele, como a de fazer mais metrô." Ela estuda à noite no Morumbi, e leva quase duas horas atravessando a cidade de trem, metrô e ônibus.

A campanha de Chalita parece ter atingido os moradores de Pirituba. Viviane Papi, de 26 anos, vendedora de cosméticos, formada em contabilidade, também votou em Alckmin e em Serra e neste ano vai votar em Chalita, "porque tem mais propostas novas para São Paulo, e para mudar um pouco, também, colocar uma pessoa que nunca entrou no governo, senão fica repetitivo: Serra, Alckmin, Kassab e toda aquela corja que nunca faz nada". O que mais chamou a atenção dela foram os planos de Chalita de reformar as escolas e os projetos sociais.

Márcia Maranhão, psicóloga de 54 anos que mora em Moema e diz que "sempre" votou no PSDB e "nunca" no PT, não votará em Serra dessa vez. "O poder por muito tempo cria raízes, cristaliza-se nas coisas boas e ruins", analisa ela. "Acho que precisa dar uma renovada." Márcia está entre Chalita e Russomanno. "Conheço um pouco da história deles. São pessoas preocupadas." Ela se lembra dos programas de Russomanno na TV pela defesa do consumidor e encontrou com Chalita em atividades na área da educação.

A aposentada Gordana Bilandzic de Morais, 64 anos, da Capela do Socorro, gosta de Serra "na saúde", setor no qual ela trabalhava. "Não voto nele para prefeito", rejeita Gordana, que pretende optar por Russomanno: "Tenho acompanhado a trajetória dele desde que a esposa dele morreu por problema da saúde", recorda. "Desde então ele é a favor, vai em cima. É sério, honesto."

Maluf. Dona de um escritório de contabilidade na Capela do Socorro, Célia Melo, de 50 anos, votou em Alckmin e detesta tanto o PT que não votará nele nem com o apoio recebido por Paulo Maluf, do qual "sempre gostou". Mesmo assim, não sabe se votará em Serra: "Ele começa e não termina."

Pelo menos nesse momento anterior ao horário eleitoral, e dentre os eleitores entrevistados pelo Estado, a aliança PT-Maluf não só não atraiu malufistas para o campo petista como afastou pessoas que tradicionalmente votavam no partido. Caio Borges, de 38 anos, parece o eleitor natural de Haddad. Ele trabalha na área de educação, da qual Haddad foi ministro, e prioriza esse tema a tal ponto que só deixou de votar no PT uma vez, por causa de Cristovam Buarque (PDT), que o colocou no centro de sua campanha para presidente em 2010. Mas não sabe se votará no petista: "Haddad veio com essa conversinha de se aliar ao Maluf para ganhar tempo na TV."

Das 8 pessoas entrevistadas em Itaim Paulista, considerado reduto do PT, apenas Simone Silva, de 39 anos, funcionária da subprefeitura de São Miguel, disse que continuaria votando no partido. Mas não conseguia lembrar o nome do candidato: "Esqueci o nome, porque não é um dos famosos, a gente acaba esquecendo o nome dele", reconheceu ela, rindo, constrangida.

As conversas ocorreram no calor do julgamento do mensalão, que foi mencionado por muitos entrevistados como motivo para não votar no PT. "Não gosto muito do PT", disse o designer Aluísio Cunha Filho, de 35 anos, que mora em Moema e se mantém identificado com a ideologia do PSDB. "Mensalão diz tudo. Não gosto dessa política deles." Dirce Vieira, de 59 anos, dona de uma loja de móveis na Capela do Socorro, está revoltada com Kassab por causa das restrições às fachadas dos estabelecimentos comerciais, mas diz: "Não vou votar no PT. O PT é ladrão."

Mas a revolta não se restringe ao PT. "Não gosto de nenhum político", declarou Antonio Aveiro, de 64 anos, dono de uma loja na Vila Matilde. "Você vê corrupção em todos os partidos. Este ano não vou votar. Não merecem o voto da gente. Se você vê o que está acontecendo na TV..."

Nas entrevistas do Estado, Russomanno figura, pelo menos nesta fase anterior ao horário eleitoral, como o candidato que ao mesmo tempo é conhecido - uma das premissas dos eleitores - e não tem um passado que represente um desgaste para ele. Talvez por ser menos conhecido como político do que como apresentador de TV. "Vou votar no Russomanno porque ele resolve as coisas", disse Jessica Silva, de 18 anos, que completou o ensino médio, vai prestar vestibular para pedagogia e participará de sua primeira eleição, na Vila Matilde. "Pelo menos tenta."

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