Eleitor desanimado com política embola disputa no Rio

Com alta taxa de rejeição dos principais candidatos, corrida pelo governo não tem favoritos

Luciana Nunes Leal , O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 03h00

Vários candidatos com chances de chegar ao 2.º turno, uma briga sem trégua entre PT e PMDB e a alta rejeição dos concorrentes marcam a disputa pelo governo do Rio de Janeiro, terceiro colégio eleitoral do País, com 12 milhões de votantes. Esse quadro cria um constrangimento para a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, que viu parte do PMDB migrar para a candidatura presidencial do tucano Aécio Neves, em resposta ao lançamento do senador petista Lindbergh Farias ao Palácio Guanabara, sede do Executivo fluminense.

O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que assumiu em abril e disputa a reeleição, promete apoiar Dilma, mas diz não ter como evitar o movimento “Aezão” (voto conjunto em Aécio e Pezão). “Estamos com a presidente, mas tem limite. Não vamos ficar com cara de paisagem escutando agressões e provocações. O PT está criando um clima muito ruim para a presidente e provoca as bases”, diz Pezão.

O rompimento entre PMDB e PT fluminenses ocorreu após sete anos e três meses de uma aliança que permitiu a parceria entre União e Estado, exaltada por Dilma a cada viagem ao Rio. Lindbergh começou a pré-campanha com ataques ao governo Cabral, a quem acusa de ter dado atenção à elite e esquecido os pobres. A reação foi imediata e o presidente do PMDB estadual, Jorge Picciani, passou a liderar a dissidência.

Embora tenham sido protagonistas dos maiores embates até agora, Pezão e Lindbergh não são os favoritos. Pesquisa Ibope encomendada pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), realizada entre 7 e 11 de junho, mostra o candidato do PR, o ex-governador Anthony Garotinho, na liderança, com 18% das intenções de voto. O senador e ex-ministro Marcelo Crivella (PRB) tem 16%. Pezão tem 13% e Lindbergh, 11%. Em quinto aparece o ex-prefeito Cesar Maia (DEM), com 8%. Miro Teixeira (PROS) e Tarcísio Motta (PSOL) tiveram 1% cada. Como a margem de erro é de três pontos porcentuais, Garotinho, Crivella e Pezão estão tecnicamente empatados.

Em meados de junho, Miro abriu mão da pré-candidatura ao governo e, em carta à direção do PROS, disse que não havia “ambiente” para uma coligação com o PSB. O diretório local do partido de Eduardo Campos resistia à aliança, alegando que a pré-candidatura de Miro não decolou, o que ameaçaria a campanha dos deputados da sigla. Após a desistência de Miro, o diretório estadual do PT no Rio anunciou aliança com o PSB. A convenção confirmou a candidatura de Lindbergh também aprovou a candidatura do deputado Romário (PSB) ao Senado na chapa do petista.

A união entre PT e PSB fez o DEM rever sua participação na eleição. Até então, o ex-prefeito Cesar Maia recusava a sugestão de Aécio de desistir da disputa e apoiar Pezão. “Não há hipótese de o DEM se aliar ao PMDB. Fazemos oposição há oito anos, seria uma vergonha”, dizia Maia. Depois, no entanto, a legenda anunciou apoio ao PMDB e decidiu que Maia sairia como candidato ao Senado na chapa de Pezão.

Com a aliança, o governador carioca abrirá palanques a três candidatos à Presidência. Além de Dilma e Aécio, haverá lugar ainda para o Pastor Everaldo (PSC), já que a legenda também anunciou apoio à reeleição de Pezão.

Nulo ou branco. O que mais desafia os candidatos é a alta proporção de eleitores que, a três meses e meio da eleição, pretendem votar em branco ou nulo: 27%. É um porcentual elevado se comparado a pesquisas de outras campanhas, quando brancos e nulos ficavam em torno de 20% nesta época.

O Ibope também mostrou que. à exceção de Crivella, todos os candidatos têm rejeição maior que a intenção de voto. Garotinho está em primeiro no quesito, com 32% de entrevistados que não votariam nele em nenhuma hipótese. Pezão é rejeitado por 18% e Lindbergh por 14%.

A revolta do eleitorado fluminense se explica em grande parte pelo comportamento de Sérgio Cabral, que viu as realizações de sua administração, como as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e a retomada de investimentos, ofuscadas por viagens luxuosas para a Europa, em companhia de empresários prestadores de serviço ao Estado, e pelo uso de helicóptero oficial para transportar a família para a casa de veraneio. Cabral chegou a apenas 18% de avaliação boa/ótima, segundo pesquisa CNI/Ibope de dezembro, ainda em reflexo dos protestos iniciados no meio do ano passado. Na pesquisa mais recente, porém, Cabral lidera entre os pré-candidatos ao Senado, com 26%, seguido por Romário (22%).

“Não me lembro de ter visto uma eleição tão aberta, com ausência de favoritos. Esta é uma característica das eleições na capital, mas, no Estado, a essa altura, em geral, já existiria uma bipolarização”, diz o cientista político Jairo Nicolau, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Embora ressalte a dificuldade de fazer previsões com um quadro tão incerto, o professor crê que o 2.º turno será disputado entre Garotinho ou Crivella de um lado e Pezão ou Lindbergh de outro. Garotinho e Crivella são fortes entre os evangélicos; Pezão e Lindbergh disputam o eleitorado de renda média da capital e região metropolitana.

O cientista político afirma que, entre os quatro principais candidatos, Lindbergh e Crivella são os “carismáticos”. Pezão e Garotinho farão “uma disputa de gestão”. Embora a população do Rio siga a tendência nacional e aponte a saúde como maior problema, a segurança estará no centro do debate, aponta Jairo Nicolau.

A campanha ocorre no momento em que as UPPs estão em xeque. Ataques de bandidos às unidades têm sido constantes. Só neste ano, 25 policiais foram feridos e quatro foram mortos em favelas pacificadas. São crescentes também as denúncias de violência policial cometidas contra moradores, que vieram à tona com a morte do pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde julho do ano passado, depois de ter sido abordado por policiais da UPP. Seu corpo jamais foi encontrado.

Cabral e Pezão também são cobrados por não terem levado na mesma medida benefícios sociais e infraestrutura às comunidades pacificadas. Pezão argumenta que o projeto das UPPs ainda será aperfeiçoado, especialmente com a formação de novos policiais, e promete levar melhorias às favelas. Seus opositores são sempre cautelosos e falam em “aperfeiçoar” as UPPs, mas reconhecem os méritos da pacificação.

Texto alterado em 17.07

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Atos derrubam índices de Cabral

O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 11h50

Na zona sul, o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, morto após ser abordado por policiais da UPP da Rocinha, motivou passeatas e o movimento “Cadê Amarildo?”, com adesão de intelectuais e celebridades. Os protestos derrubaram a popularidade de Cabral, que durante 36 dias viu um grupo acampar na esquina da rua onde mora, no Leblon (zona sul).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.