Eleitor-consumidor quer virar cidadão

Análise: José Roberto de Toledo

O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h13

Eleitora da zona sul, explicando por que ela não pretende votar em José Serra (PSDB): "Ele começa e não termina". Eleitor da zona leste, tentando lembrar o nome do candidato petista: "Esqueci… Não é um dos famosos. A gente acaba esquecendo o nome dele". Eleitor jovem, prestes a votar pela primeira vez: "Esse negócio de PT e PSDB não tem frescura, é tudo a mesma coisa".

As frases acima são tão reveladoras do que vai pela cabeça do eleitorado quanto as pesquisas quantitativas. Embora não tenham o rigor de uma amostra científica, as 52 entrevistas do repórter Lourival Sant'Anna em sete bairros-chave da cidade revelam aspectos tão importantes quanto as taxas de intenção de voto. Entrevistas e estatísticas se complementam para descrever a corrida sucessória paulistana antes do horário eleitoral.

A frase da eleitora resume em cinco palavras o principal problema de Serra na campanha municipal. Embora ela já tenha votado nele e elogie o tucano, diz que Serra não serve para prefeito, por achar que não é o que ele quer de fato. Não duvida de sua capacidade, mas de seu compromisso.

Isso ajuda a explicar o recorde de rejeição ao tucano. É uma soma de petismo, cansaço e descrédito. Um lado não vota em Serra por ele personificar o "inimigo". Porém, o crescimento de sua rejeição vem de outra banda: de quem já votou ou poderia votar no nome do PSDB em outras circunstâncias, mas hoje quer renovação. Quase metade dos que rejeitam Serra vem de onde ele é mais forte, da zona antipetista da cidade, segundo o Ibope.

Num primeiro turno, com múltiplas possibilidades de escolha, esse "neo-anti-serrista" tende a votar em outro candidato. Mas, num eventual segundo turno contra o PT, é possível e até provável que ele reconsidere sua posição. No turno final, não se trata de eleger o preferido, mas de barrar o arquirrival.

Logo, o problema de Serra é duplo. Não basta ele chegar ao segundo turno. Tem que torcer para que o petista Fernando Haddad também chegue. No confronto contra Celso Russomanno, Serra corre mais risco de perder, como mostra a simulação do Ibope: 42% a 35% para o candidato do PRB, que não carrega a rejeição ao PT.

Nunca um candidato petista esteve tão longe do segundo turno paulistano. O grau de desconhecimento de Haddad entre tradicionais eleitores do PT é inédito. Só 38% dizem conhecê-lo ou ter alguma informação sobre ele. Haddad é mais conhecido até entre simpatizantes do PSDB: por 44%, segundo o Ibope. Russomanno tem o dobro de conhecimento entre os petistas.

O atraso de Haddad é incomparável ao tempo que Dilma Rousseff levou para decolar em 2010. A esta altura da campanha, a então presidenciável disputava a liderança das pesquisas. Haddad não alcançou dois dígitos. Até o nome atrapalha. Eleitores da periferia não sabem como pronunciar o "H" inicial. O obstáculo fonético bloqueia a memória. Mesmo quando o eleitor sabe de quem se trata não sabe nominá-lo. Se fosse só isso estaria fácil.

Há um desinteresse recorde na eleição deste ano. E o mais desinteressado é justamente o eleitor das áreas que costumam votar em peso nos candidatos do PT. Na zona petista, 69% dizem ter pouco ou nenhum interesse pela eleição, contra 53% na área antipetista. Até o novo visual de Lula atrapalha Haddad, pois tem eleitor que não reconhece o ex-presidente sem barba.

Como não existe vácuo em política, o espaço deixado pelo anônimo petista foi ocupado por Russomanno. Ele personifica a "novidade conhecida", um perfil difuso e paradoxal que escapa do discurso de muitos paulistanos. Ou seja: alguém que aparenta ser renovação, mas que o eleitor já viu fazer algo que acha útil.

"Vou votar no Russomanno", diz a eleitora de uma das zonas eleitorais mais volúveis de São Paulo. "Eu assisto à Patrulha do Consumidor", conta a jovem, referindo-se ao programa apresentado pelo candidato do PRB. "Ele (Russomanno) resolve as coisas, ou pelo menos tenta".

A frase explica por que Russomanno lidera a corrida eleitoral, por ora. Não é só por ele ser conhecido da TV, nem apenas por representar uma alternativa à polarização PT-PSDB. É por ele parecer dar solução aos problemas do dia a dia das pessoas.

O paulistano conquistou respeito como consumidor, mas não como cidadão. Sua relação com o poder público é de eterna espera: pelo ônibus que não chega, pelo médico no posto de saúde, por vaga na creche. Por isso o bolso é menos decisivo na eleição municipal. O eleitor deseja um prefeito que solucione seus problemas cotidianos nunca resolvidos. Que corte a espera.

Muita coisa tende a mudar na percepção dos paulistanos após o início do horário eleitoral. O grau de conhecimento dos candidatos aumenta, afinidades se formam, rejeições aparecem.

Com até cinco vezes mais tempo de TV do que os rivais, Serra e Haddad levam muita vantagem. Mas não é apenas com superexposição que conseguirão sufocar os candidatos a tertius. O novo prefeito terá que convencer o eleitor de que ele é o mais capaz para fazer o paulistano não ter que esperar tanto.

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