Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Eleito no Rio Grande do Sul posterga medidas amargas

José Ivo Sartori evita anunciar onde vai cortar gastos no Estado mais endividado do País e agradecer a votação recorde que teve

Elder Ogliari e Lisandra Paraguassu, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 03h00

Governador eleito do Rio Grande do Sul, o peemedebista José Ivo Sartori passou o dia de ontem em entrevistas e comemorações. Dizia querer agradecer a votação recorde que teve no domingo, e esbanjava bom humor. No entanto, a partir da próxima semana, quando começa a cuidar da transição, o ex-prefeito de Caxias do Sul descobrirá que apenas a boa vontade não será suficiente para lidar com a crise econômica em que os gaúchos estão mergulhados.

Até agora, Sartori recusou-se a dar pistas do que fará para enfrentar as finanças de um Estado que gasta mais do que arrecada e esgotou sua capacidade de endividamento.

A única medida já declarada pelo novo governador é a de tentar renegociar a dívida do Rio Grande do Sul, que hoje alcança R$ 50 bilhões - 90% dela com a União - e compromete 13% da receita líquida do Estado.

Essa negociação já está em andamento, foi aprovada pela Câmara e espera o aval do governo para passar pelo Senado, mas apenas permitirá ampliar a capacidade de endividamento do Rio Grande do Sul. Ainda assim, Sartori não tem um plano concreto para essa renegociação e diz que não vai se envolver agora, enquanto o governador é Tarso Genro. “O governador até 1.º de janeiro é Tarso Genro e eu não vou me sobrepor a isso até lá”, afirmou ao Estado.


O governador eleito defendeu durante a campanha que, além de mudar o índice de reajuste da dívida, seria necessário diminuir o porcentual. Sua proposta é de que a parcela caia para 7%, índice pouco maior do que os 6% obtidos pelos Estados que, à época da negociação, concordaram em privatizar seus bancos estaduais, o que o Rio Grande do Sul nunca fez e que não está nos planos. A proposta, assim como a de reaver créditos da Lei Kandir, outra de suas ideias, dependem menos dele do que do governo federal.

Aliado do tucano Aécio Neves na campanha nacional, Sartori ouvira do candidato a promessa de uma renegociação nos primeiros meses de 2015, caso fosse eleito. Com a derrota, o peemedebista terá de conversar com Dilma Rousseff, a quem nunca apoiou. “Sou a favor do Brasil, e não oposição ou situação”, diz. “Desejo que o País vá bem, resolva seus problemas econômicos.” Destaca que, mesmo com posições políticas diferentes, manteve boas relações com a Presidência da República quando foi prefeito de Caxias (2005 a 2012) e espera que isso se repita agora.

Seus aliados o consideram um “radical da cautela”. De fato, Sartori se recusa a falar em outras medidas concretas, algo pelo qual foi cobrado durante a campanha. “Não existe isso agora”, esquivou-se. “Primeiro vamos conhecer a realidade interna (do governo), durante a transição, para depois discuti-la.”

Sem promessas. Na verdade, os dados são públicos e conhecidos, mas o novo governador sempre evitou falar sobre medidas que deverão ser bastante amargas. Até hoje, Sartori não se comprometeu com nenhuma promessa, nem mesmo as exigências dos professores gaúchos de que o Estado pague o piso nacional, estabelecido em lei. Perguntado sobre eventuais reajustes salariais, uma cobrança constante dos servidores gaúchos, apenas afirmou que “vai cumprir as leis e pagar os aumentos dados pelos atuais governos, alguns que vão até 2018”. Outros reajustes o Estado não tem qualquer margem de manobra para financiar.

Sartori falou em corte de gastos, mas nunca especificou quais - o Rio Grande do Sul compromete 32% da sua folha com a previdência e 62% para cumprir as obrigações constitucionais, despesas difíceis de reduzir.

Qualquer plano de governo no Rio Grande do Sul é inexistente frente à crise financeira vivida pelo Estado. Tarso apostava na manutenção de taxas de crescimento como a de 2013, de quase 6%, para melhorar as receitais estaduais. Ainda assim, o Estado compromete 112% da sua receita todos os anos, e o déficit deve aumentar.

Nesse primeiro dia desde a sua eleição, Sartori evitou falar até mesmo na composição de seu governo. Chegou a advertir que “nomes especulados poderiam até mesmo ser prejudicados” - o que não impediu que uma lista de possíveis secretários começasse a circular.

O novo governador tem a vantagem de começar seu governo com uma maioria ampla, tanto na Assembleia quanto para formação de sua equipe. Nada menos do que 18 partidos estiveram na sua coligação nesse 2.º turno e seu grupo já conta de saída com 26 dos 55 deputados na Assembleia. 

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