DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Eleições 2018 levam ódio e desavença às relações

Sociólogos, cientistas políticos e filósofos estudam afastamento entre amigos e parentes

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2018 | 05h00

Na mesa do happy hour um assunto colocou água no chope das amigas: a eleição presidencial. Unidas em torno do candidato João Amoêdo (Novo), elas evitam comentar o destino dos seus respectivos votos em um eventual segundo turno. “No bar, tentamos não tocar no assunto. Já tem muita discussão no trabalho, na família, no grupo do WhatsApp...”, diz a bancária Tayna Moraes, de 21 anos. 

Em uma eleição já marcada por atos de violência, ódio e irracionalidade, as desavenças entre amigos, parentes e colegas de trabalho podem parecer algo menor, colateral e até anedótico. Mas o psicanalista Jorge Broide (USP) não pensa assim.

“Essa é uma consequência séria do ambiente eleitoral. Os núcleos familiares e relações de amizade são os primeiros a se romper em situações de polarização acirrada”, diz Broide. “Como o debate político não está no cotidiano das pessoas é comum que a posição ideológica de quem está ao nosso lado nos surpreenda e cause repulsa. A convivência com quem pensa diferente, na intimidade, é muito difícil”, completa o psicanalista.

É difícil encontrar alguém que não tenha uma história de desavença para contar nesse período. Na família da pesquisadora Beatrys Fernandes, de 26 anos, por exemplo, a discussão ganhou um caráter religioso. De família mórmon, ela viu o pai e o tio brigarem de forma acalorada. “Um dizia que aquilo que um candidato defendia não estava nas escrituras. O outro afirmava que o que o candidato dizia não feria a religião deles.” 

A socióloga S.F. (que pediu para não ter o nome publicado) afirma que se assustou com o comportamento de um amigo que “mandava memes defendendo a direita e querendo brigar durante a própria lua de mel”. “Na lua de mel!”, repetiu. 

A especialista em pós-venda Adriana Soares, de 31 anos, diz até evitar algumas colegas de trabalho na hora do almoço. “Tem gente que ficou tão maluca com essa eleição que não consegue falar de outro assunto. No trabalho, meu grupo evita essa pessoa para não ter que ouvir ladainha política. Ela fica isolada”, afirma Adriana. 

O comerciante Ronald Hafermann, de 60 anos, tem discutido com frequência pelo WhatsApp. Em um dos últimos embates, ele escreveu: “Dependendo do resultado das eleições eu penso até em abandonar o País”. A declaração, claro, causou ainda mais confusão nos grupos que Hafermann participa.

O especialista em relações internacionais Andrey Pereira Brito, de 28 anos, diz que uma amiga o convidou para ser padrinho de seu filho porque trocou xingamentos com o padrinho original por motivos eleitorais. “Ela me disse que não queria que a filha tivesse um padrinho que vota em determinado candidato.”

Justiça. A repulsa em relação ao posicionamento político do outro pode render mais do que uma cara feia ou um bate-boca pelas redes sociais. O advogado Felipe Mendonça, de 40 anos, atende a dois clientes que estão processando agressores virtuais. “Não pode tudo nas redes. Algumas brigas acabam gerando processos na Justiça. Dentro do embate de ideias, não pode racismo, não pode xenofobia. Tenho dois clientes que foram agredidos moralmente por demonstrarem apoio a determinado candidato”, diz Mendonça. “Minha orientação foi para que pedissem para o agressor parar, que não reagissem e tirassem print das páginas de Facebook ou Twitter. Agora, o processo está em andamento.”

“Com as redes sociais, ampliou-se em nossa sociedade uma relação de troca de favores – quando você curte ou dá um like no post de alguém na rede social você está fomentando essa troca de favores. Quando a outra pessoa não corresponde à sua visão de mundo, ao seu candidato, você reage com violência, como se tivesse sido traído, como se não tivesse um favor atendido. Um ataque ao partido ou ao candidato que você apoia é praticamente um ataque à sua pessoa”, observa o filósofo Roberto Romano (Unicamp). 

Para o cientista político Rogério Baptistini (Mackenzie), a falta de racionalidade no debate político se deve ao “nosso fracasso em formar uma cultura pública legislativa”. “A gente não consegue mais pensar em termos de um destino comum. Alguns partidos apostam nessa divisão e nossa cultura democrática é de baixa qualidade”, diz. 

“O Brasil é um País com uma sociabilidade violenta. Nós sempre tivemos potencial para um tipo de discurso de ódio. Agora, nessa eleição, politizaram esse discurso. Agora, ele, o discurso do ódio, foi ‘mememizado’ (virou meme, tipo de imagem ou mensagem que se espalha pela internet) e ficou atraente para uma parcela da população”, afirma a cientista política Esther Solano (Unifesp), organizadora do livro Ódio Como Política.

Alheio às teorias sobre a irracionalidade política, o garçom Pedro Paulo Chicarelli, de 38 anos, diz acompanhar as discussões dos clientes com ouvidos atentos e preparado para intervir no caso de algum descontrole mais grave. “Felizmente, ainda não precisei me meter”, afirma. Mas, quando todo mundo vai embora, Chicarelli e outros garçons levantam as mesas, começam a recolher as garrafas e... “Vixeee, a briga aqui é séria. Quando o bar fica vazio a gente só fala de política e fica se provocando.” / COLABOROU PAULO BERALDO

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