Fernando Bizerra Jr/EFE
Fernando Bizerra Jr/EFE

Eleição no Brasil será decisiva para a América Latina e ordem global, diz ex-premiê espanhol

Em entrevista exclusiva, José Luis Zapatero diz que eleição no País será fundamental para a região e defende solução pacífica para o conflito na Venezuela

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2018 | 15h15

As eleições 2018 no Brasil serão decisivas para o futuro do País, da América Latina e da ordem global. Essa é a avaliação do ex-premiê espanhol José Luis Rodriguez Zapatero. "A campanha é decisiva porque o Brasil é uma referência para a América Latina e para a ordem mundial", disse ele, que esteve no Brasil para um seminário internacional organizado na semana passada pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Ele concedeu entrevista exclusiva para o Estado em um hotel em São Paulo após o evento. 

Zapatero, que liderou a Espanha de 2004 a 2011 e foi um dos principais aliados internacionais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), defendeu a maior integração entre os países da América Latina, uma solução pacífica para a situação política da Venezuela e disse que a voz do Brasil faz falta em discussões internacionais.

Zapatero atuou como mediador entre o chavismo e a oposição venezuelana durante a negociação frustrada que teve a República Dominicana como sede. Ao abandonar a negociação, opositores venezuelanos acusaram o político espanhol de, na prática, defender o chavismo.

Qual a importância da eleição brasileira para o mundo?

Esse processo será decisivo para a América Latina e para a ordem global. Na comunidade internacional, todos valorizavam e respeitavam extremamente o Brasil. Com a destituição de Dilma (em 2016), entrou um governo que tem um presidente que não se apresenta à reeleição, que não foi eleito diretamente. Isso colocou o Brasil em um grande parênteses em sua história. 

O que espera para o futuro do País?

Desejo que essas circunstâncias internas se superem e o Brasil volte a ocupar o papel de grande potência, ganhe quem ganhar a disputa. O Brasil me parece majoritariamente de centro-esquerda. Se a centro-esquerda acertar, terá a maioria. Todos os países atravessam momentos difíceis. O importante é saber como se colocar de pé outra vez. Isso só se faz consolidando instituições, partidos, a democracia. 

Como o Brasil deve trabalhar para ajudar na solução do conflito da Venezuela? 

Primeiro: pode-se gostar de um governo ou não. Todos têm o direito de não gostar do governo de Nicolás Maduro. Eu estive lá, desde 2015, fazendo uma tarefa quase de paz preventiva para um conflito de 20 anos não desembocar em uma confrontação aberta. Houve posições de governos  que não favoreceram o diálogo, considerando impossível qualquer relação ou trato com Maduro. Defendo uma solução diplomática e pacífica do conflito.

O Brasil está sofrendo as consequências, como outros países, da forte imigração. Ela tem muito a ver com as duríssimas sanções que o governo dos Estados Unidos impôs aos venezuelanos. Eles praticamente bloquearam financeiramente o país. Creio que se deveria reconsiderar (as sanções) porque quem está pagando não é o governo da Venezuela, e sim o povo. Após as eleições, espero que o Brasil possa ajudar a mudar os métodos dessa discussão.

O sr. é um defensor da integração do continente. Como vê essa discussão hoje? 

Se eu fosse um jovem da América Latina, trabalharia para que houvesse um presidente latino, um Parlamento latino, uma Justiça regional, um orçamento redistributivo para ajudar os países com mais dificuldades. Uma voz latino-americana ao mundo que tivesse o peso que têm Estados Unidos, China e Europa.

A região tem duas qualidades fundamentais: é jovem e tem muitos recursos. No século 19, houve um grande processo na América Latina, o das independências. Dois séculos depois, deveria haver um processo de igual dimensão: a unidade da América Latina. Em um mundo global, com finanças globais e comércio global, com internet, um país sozinho cada vez terá menos força. 

Que falta faz o Brasil hoje nas discussões internacionais?

Tem dois elementos que me parecem centrais. Um é sua preponderância no debate de abolir a pobreza extrema. A luta contra a pobreza tinha no Brasil um protagonismo fundamental. Em segundo, o País é a principal potência latino-americana, tem o papel de liderar a integração.

Mas hoje o Brasil, por sua dimensão e tamanho, tem mais um papel de grande potência que de liderança para a América Latina. Gostaria que no futuro o Brasil colocasse seus esforços em direção à solução dos desafios de uma integração da América Latina. Se os países querem ser soberanos, precisam ser influentes. E, para ser influentes, precisam participar de processos de integração.

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