Ele vive de caçar torturadores

Jair Krischke persegue ex-agentes há 4 décadas

Leonencio Nossa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h21

O historiador gaúcho Jair Krischke, 74 anos, é um caçador de criminosos das ditaduras latino-americanas. Referência da luta por direitos humanos no continente, ele está por trás dos processos de extradição de ex-agentes uruguaios e argentinos julgados pelo Supremo Tribunal Federal.

Tido como ativista independente e rigoroso, conhecedor das legislações estrangeiras, Krischke - que desde o período de repressão no Brasil já defende as vítimas de agentes da ditadura - tem acionado a Polícia Federal e outros órgãos de governo para que entreguem a Buenos Aires e Montevidéu os acusados de crimes contra a humanidade. Em conversa com o Estado, ele revela que, no momento, está à caça de um ex-agente uruguaio refugiado em uma cidade brasileira.

Krischke sabe que, para garantir a extradição, precisa provar que o homem que procura sequestrou algum militante político. Na interpretação do STF, o crime de sequestro de uma pessoa ainda desaparecida não prescreve. Os crimes de tortura e homicídio prescrevem em 20 anos. "Se a pessoa não for acusada por desaparecimento, que é crime permanente, o resto prescreve", lamenta o historiador. Segundo ele, o Brasil "é o país da impunidade, por isso que eles (ex-agentes) vêm para cá".

A "brecha" na legislação que permitiu extraditar apareceu em 2009, quando o STF julgou o caso do coronel reformado uruguaio Manoel Cordero Piacentini. Localizado na gaúcha Santana do Livramento, na fronteira com aquele país, ele era acusado de dezenas de homicídios e torturas na Argentina. Só foi extraditado porque, entre seus supostos crimes, estava a participação no sequestro de um bebê de 20 dias, Simón Riquelo, filho de um casal de militantes de esquerda, em 1976. O garoto foi adotado por um policial e reapareceu, aos 26 anos, com a identidade de Aníbal Armando Parodi. O prazo de prescrição do sequestro começou a valer a partir de sua localização, em 2002. "Lutei cinco anos nesse caso", diz Krischke.

O historiador informou autoridades argentinas, a PF entrou no caso e o coronel foi preso em Livramento. No STF, o então ministro Cezar Peluso avaliou que o crime de desaparecimento não prescrevia.

Em março passado, o STF aceitou a extradição de outro ex-agente investigado por Krischke - Cláudio Vallejos, torturador da Escola de Mecânica da Armada, a Esma, um dos principais centros da repressão argentina, em Buenos Aires. Ele tinha participado de um sequestro e estava desde 2002 em Santa Catarina. Ficou um ano preso em Lages. Autor confesso de dezenas de mortes, Vallejos revelou, nos anos 1980, que participou do sequestro do pianista brasileiro Francisco Cerqueira Junior, que acompanhava o compositor Vinícius de Moraes numa turnê em Buenos Aires, em 1976.

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