'Ele defendia uma reforma agrária diferente da do PT'

Senador Jorge Viana diz que ambientalista surgiu como uma resistência ao desmatamento, que era a 'política oficial' da época

XAPURI, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2013 | 02h01

Num discurso histórico ao lado do caixão de Chico Mendes, o candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmava que os seringueiros precisavam ter "coragem" e "disposição" para preservar a floresta. "Será que essas pessoas são tão burras que imaginaram que matando Chico Mendes matariam a luta dele?", disse Lula, sob aplausos, no velório em Xapuri, em 1988. "Vamos fazer a luta do companheiro Chico Mendes se consolidar neste País."

O ambientalista que conseguiu apenas se eleger vereador de Xapuri e amargou uma derrota para deputado estadual ultrapassou, após a morte, as divisas da floresta. O espólio político deixado por ele atingiria as urnas e decisões políticas dos grandes centros.

Chico Mendes é o símbolo de um grupo sem coesão que arrancou, com Marina Silva, 20 milhões de votos na última eleição presidencial e ocupou cargos importantes no Senado, com Tião Viana presidente em 2007 e Jorge Viana, vice na atual legislatura. O senador Jorge Viana lembra que, em 1986, dois anos antes da morte do ambientalista, o grupo não conseguiu que Chico Mendes tivesse cem votos na eleição para deputado estadual em Rio Branco. "A gente achava que, se virasse autoridade estadual, Chico sobreviveria. Era coisa marcada. Ele iria morrer."

"Com a morte do Chico, tudo parecia perdido. Mas pegamos as ideias dele, que não davam votos, e conseguimos ir para o 2.º turno na disputa pelo governo do Estado, em 1990, e depois nunca mais perdemos. Hoje, o Acre é o único Estado onde o PT está há 15 anos no poder", afirma. "Em respeito à memória dele, a gente não podia deixar a UDR (União Democrática Ruralista) governar o Acre."

Sintonia. Uma marca do grupo é a falta de sintonia com as lideranças paulistas do PT. Em 1998, Jorge Viana foi eleito governador tendo o tucano Edson Cadaxo como vice. "Lula deu aval", costuma dizer Viana, criticado pela relação cordial que mantém com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O senador reclama da relação de "ódio" entre o PT de São Paulo e o PSDB.

"Ele (Chico Mendes) surge como resistência ao desmatamento que era uma política oficial", diz o senador. "Chico queria uma reforma agrária diferente da que a CUT e o PT pregavam. Ele queria garantir que as pessoas continuassem na floresta. Nunca ficou na divisão 'homem e natureza'." / L.N.

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