Ela trocou o divã pelo palanque, mas sem muitas concessões

Ela trocou o divã pelo palanque, mas até hoje acha que a política é uma "maluquice". Psicóloga e psicanalista, a candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, sempre conviveu com extremos. Rica e de família quatrocentona, circula com desenvoltura tanto nos Jardins como na periferia. Impulsiva e habituada a dizer "na lata" o que pensa, paga o preço por bate-bocas e deslizes verbais. Depois de muitos escorregões, porém, a mulher que hoje tenta retomar a cadeira que um dia ocupou faz de tudo para domar o temperamento explosivo e reconquistar a classe média. Ao vestir esse novo figurino, Marta conta até dez para não sair do sério em público, a menos que seu objetivo seja mostrar indignação e atacar os adversários. Seu desafio, agora, é convencer a população de que, se eleita, não fará da prefeitura um trampolim para vôos mais altos, como ocorreu com José Serra (PSDB), hoje governador. Tudo sem alterar o tom de voz, como reza o manual do marketing político. "Marta não tem a mesma paciência que eu nem leva desaforo para casa", constata o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cabo eleitoral da ex-prefeita. Mesmo com estilos diferentes, os dois têm um ponto em comum: a forte intuição. "Quando eu levava pedrada do PT, por causa da política econômica, ela era a primeira a me defender, antevendo que daria certo. Ao perceber que uma coisa é importante, queima capital político", conta o deputado Antonio Palocci (SP), ex-ministro da Fazenda. Apesar de ser boa ouvinte e analisar diferentes argumentos antes de tomar decisões, a candidata do PT não tolera conversa fiada, hesitação e muito menos reuniões intermináveis. Ela sempre foi assim, tanto em seu partido, que consome horas em discussões acaloradas, como no comando da prefeitura, de 2001 a 2004. "O tempo da Marta é mais rápido do que o das outras pessoas e às vezes me pergunto se não é isso que causa estranheza a quem não a conhece", afirma a psicanalista Eleonora Rosset, sua amiga desde a adolescência. É famoso o estilo da ex-prefeita de se desvencilhar de situações embaraçosas. "Próxima pergunta", ordena, quando repórteres insistem em saber o que ela não quer revelar. Desconfiada, também corta no ato abordagens indesejáveis. Foi o que aconteceu na noite de 17 de setembro, quando uma voz afinada, no fundo do auditório, chamou a atenção da platéia, formada por cartolas do futebol."Glória, glóriaaaa", cantarolou o homem sorridente, interrompendo seu discurso de campanha. De repente, diante de olhares perplexos, as primeiras estrofes do canto foram substituídas por um grito. "Jesus te ama, Marta!", exclamou o sujeito. Sem dar chance para a pregação, a petista pôs um ponto final ali mesmo. "Eu também", encerrou. Mirou em seguida o microfone e prosseguiu com a reunião.Na tentativa de fisgar a classe média, Marta agora admite ter exagerado nas taxas municipais, como a do lixo e da luz, e reconhece que o IPTU progressivo "pesou" no orçamento de muitas famílias. Não sem motivo: a cobrança ressuscitou o estigma antipetista da gestão Luiza Erundina (1989-1992) e deu munição para o apelido "Martaxa". "Nunca mais ela vai se livrar dessa pecha", prevê o vereador Gilberto Natalini (PSDB), que inventou o apelido junto com o colega Dalton Silvano, tucano e publicitário. "Nosso objetivo é barrar a volta da Martaxa e o derrame tarifário sobre a cidade", emendou Natalini.  Para a cúpula do PT, porém, não foram apenas os problemas do governo e os ruídos de comunicação que causaram a derrota de Marta, em 2004. A própria candidata acredita ter enfrentado preconceito após se separar, em 2001, do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), com quem foi casada por 37 anos."Ninguém me defendeu", escreveu ela no livro Minha vida de prefeita - O que São Paulo me ensinou, lançado no mês passado. "Eduardo mostrou seu sofrimento em público e eu remoí minhas aflições em particular. Com isso tornei-me a megera da história." Suplicy agradeceu "o respeito e o carinho" com que a ex-mulher se referiu a ele no livro. "Os sentimentos que expressei na época refletiram o que eu pensava. Hoje o momento é outro e as coisas são diferentes", disse o senador. "Eu considero Marta uma pessoa de muito valor. É a mãe querida de meus três filhos, a avó adorada de nossos cinco netos." Embora não economize elogios a Marta, Suplicy não admite que a exposição de seus sentimentos, na ocasião, tenha provocado prejuízos eleitorais a ela. "Queriam que eu soltasse rojões, que fosse embora de São Paulo?", reage. Na avaliação do senador, o que mais pesou para a derrota da então prefeita foram os erros da campanha, e não o lado pessoal. "O PT fez uma campanha para acirrar os ânimos de pobres contra ricos e não deu atenção devida aos programas sociais implantados no governo Marta, como o Centro Educacional Unificado (CEU), o Bilhete Único e o Renda Mínima", observa Suplicy. "Agora, a ênfase é outra e há uma postura mais propositiva."O destino político dos dois petistas, no entanto, ainda pode se cruzar em 2010. Se vencer a eleição, Marta ganhará musculatura, na correlação de forças do PT, tanto para disputar o governo paulista como a sucessão de Lula, uma vaga também cobiçada pelo senador. Diante da inconveniência de assumir um desejo que só pode causar desgaste na campanha e fúria no Planalto, ela jura que sua intenção é ficar "dois mandatos" na prefeitura. Menos cauteloso, Suplicy cutuca o governo: vai insistir em prévia para a escolha do candidato. "Meu jogo é combinado com Lula", disse Marta, recentemente, em conversa com Palocci. Não soa como novidade para ninguém que a preferida do presidente para a corrida ao Planalto, por enquanto, é a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). Mas tudo pode mudar, dependendo do cenário daqui a dois anos e do desfecho da briga em São Paulo. Uma coisa, porém, é certa: Marta não é do tipo que sofre por antecipação. CREOLINA Oito anos após se eleger prefeita avisando que jogaria creolina no Palácio das Indústrias, a mulher que pretende dirigir pela segunda vez a capital paulista - e cuidar de um vistoso Orçamento, previsto em R$ 29,4 bilhões para 2009 - começou a moldar seu temperamento para a campanha quando ainda estava no Ministério do Turismo. E foi Lula que lhe indicou o marqueteiro João Santana, consultor do Planalto e da própria Dilma. Nem sempre o presidente e a ex-prefeita foram tão próximos. Embora Lula tenha sido o "inventor" de sua candidatura ao Bandeirantes, em 1998, e seu padrinho de casamento com o franco-argentino Luis Favre, em 2003, a relação entre os dois também foi contaminada por intrigas petistas. Antes de chamá-la para a Esplanada, por exemplo, o presidente submeteu Marta a um constrangimento de meses. Contrariado com a pressão dos "martistas" para acomodá-la num ministério de visibilidade, como Educação ou Cidades, ele deixou o convite em banho-maria. Quando finalmente assumiu o Turismo, Marta teve atuação discreta. Um tropeção verbal, no entanto, jogou a então ministra na fogueira, num dia que era para ser de glória, com o lançamento do Plano Nacional de Turismo, em junho de 2007. Ao ser questionada sobre qual conselho daria a passageiros que desistiam de viajar para fugir do caos aéreo, ela não titubeou. "Relaxa e goza", respondeu. "Ah, gente, é igual a dor do parto: depois você nem se lembra."O pedido de desculpas para consertar o estrago não adiantou. "Eu chorava, sentia raiva da minha estupidez, das pessoas que se aproveitavam de uma frase infeliz para acabar com uma reputação", confessou Marta em seu livro. Tempos depois, o próprio Lula a consolou. "Relaxa", disse o presidente. CEU PARA TODOS  No período em que Marta comandou a prefeitura, os problemas na cidade também causaram desgastes e, pior, confrontos. Numa gestão marcada por polêmicas, ela foi ameaçada de morte pela máfia dos transportes e em várias ocasiões vestiu colete à prova de bala. "Foi uma das situações mais difíceis do governo", atesta o deputado Carlos Zarattini (PT-SP), ex-secretário dos Transportes e hoje coordenador do comitê de Marta. Pesquisa encomendada pela prefeitura pouco antes da campanha pela reeleição, em 2004, mostrou que os pontos negativos do governo não se resumiam às taxas e ao IPTU progressivo. As falhas no sistema de saúde apareciam com destaque na lista de reclamações, ao lado do estresse provocado no cotidiano da cidade com a construção de dois túneis sob a Avenida Faria Lima. O CEU, o Bilhete Único e o Renda Mínima, por sua vez, eram elogiados pela população, principalmente nas camadas mais carentes. Formada nos melhores colégios de São Paulo, como o Nossa Senhora de Sion e o Des Oiseaux, onde as aulas eram dadas em francês, Marta não esconde o entusiasmo toda vez que fala do CEU, o Centro Educacional Unificado. "O CEU é para todos, gente!", anunciou ela, há poucos dias, em comício na Cidade Tiradentes, reduto do PT encravado na zona leste. "Eu vivo recebendo abaixo-assinado do CEU", completou. Parecia falar do paraíso. Naquela paisagem sem cor, Joanita Ana Rabelo parou para ouvir a mulher de cabelos alinhados, dona de grandes olhos azuis. "Nossa, ela é igualzinha à da TV, né?", admirou-se a dona de casa. Só queria pedir médico no posto de saúde, mas não arredou pé do palanque até lhe dar um abraço. A fama de arrogante ali se desmanchou.

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