Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Eduardo Paes, o sobrevivente da Era Cabral que voltará à prefeitura do Rio

Ex-prefeito venceu o atual, Marcelo Crivella, por resultado recorde, e deu a volta por cima após derrota surpreendente para Wilson Witzel em 2018

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2020 | 20h53

RIO - O novo prefeito do Rio consegue, no mesmo evento, comemorar o apoio do PSOL, um partido de esquerda, e lamentar a ausência de um vereador bolsonarista, de extrema direita, como fez em reunião na sede do PSD durante a campanha do segundo turno. Habilidoso, bom de papo e com pouca ou nenhuma nitidez ideológica, Eduardo Paes, que agora volta ao Palácio da Cidade, encarna o perfil mais procurado em uma eleição carioca marcada pelo pragmatismo dos eleitores: o político tradicional e gestor experiente.

Depois da surpreendente eleição do novato Wilson Witzel (PSC) no Estado em 2018 - quando o ex-juiz venceu o próprio Paes -, o Rio deu ao ex-mandatário da cidade, agora, a maior votação percentual já recebida por um eleito em segundo turno. Paes venceu neste domingo o atual mandatário, Marcelo Crivella (Republicanos), com 64% dos votos válidos, num total de 1.6 milhão de sufrágios. O derrotado ficou com 36%.

O período de Paes à frente da prefeitura, entre 2009 e 2016, foi o auge de um Rio que parecia enfim retomar espaço depois de décadas de crise e decadência. Havia ocorrido a mudança da capital federal para Brasília, em 1960; a fusão entre os Estados da Guanabara e do Rio, em 1975; e a relação distante e intermitente com o governo federal, nos anos 80, 90 e 2000.

Ao lado do ex-governador Sérgio Cabral Filho, à época seu correligionário e padrinho no então PMDB, e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o prefeito simbolizou o período dos grandes eventos. Foi quando o Cristo Redentor decolou na capa da revista britânica The Economist, celebrando a projeção internacional do Brasil.

Para voltar à prefeitura, contudo, aquele Paes precisou mudar - a começar pelo partido. Migrou para o DEM da família Maia, cujo patriarca, o também ex-prefeito carioca Cesar, foi seu padrinho político nos anos 1990, no PFL. A mudança foi natural, dado o esfacelamento do MDB no Rio depois dos escândalos de corrupção envolvendo Cabral e outros caciques, como os ex-presidentes da Alerj Jorge Picciani e Paulo Melo. Tirando um ou outro relato ainda difuso, Paes saiu ileso desse cenário de desastre.

A mudança partidária não foi novidade para o agora prefeito eleito. Durante o escândalo do mensalão, o então tucano Paes foi um dos mais ativos opositores a Lula na CPI dos Correios, em 2005. Três anos depois, em busca de apoio dos petistas, pediu desculpas ao presidente, em encontro na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio.

Na conversa, que ocorreu após articulação de Cabral, o então candidato à prefeitura reconheceu ter errado ao chamar Lula de “chefe de quadrilha”. Também entregou uma carta com um pedido de desculpas à primeira-dama, Marisa Letícia. No texto, o então deputado federal se desculpou ainda por ter feito ataques pessoais a Fabio Luís Lula da Silva, no caso Gamecorp. Os políticos se entenderam, mas Marisa, dizia-se, apenas tolerava Paes.

Derrota em 2018

Apesar de, durante seus oito anos de prefeitura, não ter passado por nada semelhante à prisão e às condenações de Cabral, o ex-prefeito teve sua imagem muito associada ao padrinho. Foi com base nisso que Witzel, com um discurso genérico de combate à corrupção, surpreendeu e conseguiu derrotá-lo em 2018.

O Paes de 2020 tentou mesclar a malandragem que lhe é característica com um perfil mais sóbrio, sucinto e que buscava o tempo todo apelar para o risco de ser eleito eleger alguém “incompetente” para o Executivo. “Veja o que aconteceu com o Witzel”, martelou, sempre que pode.

Com uma campanha focada em fazer o Rio “voltar a dar certo”, o demista passou a maior parte do período eleitoral concentrado em falar de problemas da cidade. Sempre procurava comparar a realidade atual com os seus dois mandatos na prefeitura, para desgastar Crivella. No segundo turno, contudo, após os ataques da campanha adversária, reagiu - também atacando. Veiculou anúncios que pintavam o prefeito como traidor dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff  e o chamando de “pai da mentira”, numa referência à figura do Diabo na Bíblia. Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e tem força no eleitorado evangélico.

Nos compromissos públicos, foi a bairros populosos da zona oeste - onde o atual prefeito teve boa votação no primeiro turno -, mas não deixou de visitar alguns redutos. Na última quinta-feira, 26, dirigiu-se à entrada do Parque Madureira, na zona norte, idealizado por ele no bairro em que recebe votações expressivas.

Fica ali perto a quadra da Portela, sua escola do coração. Apaixonado pelo carnaval, Paes era presença certa nos desfiles quando esteve à frente do Executivo. Protagonizava cenas de descontração com seu chapéu panamá, no desfile das escolas de samba do Grupo Especial. É o oposto do religioso Crivella, que passa à história da cidade como o primeiro prefeito a não pisar no Sambódromo em nenhum dos dias de desfiles nos quatro anos de mandato. O bispo licenciado jamais entregou a chave da cidade ao Rei Momo e chegou a viajar para o exterior durante a festa, o que gerou críticas.

Trajetória

Quando foi eleito prefeito, em 2008, o bacharel em Direito Paes tinha apenas 39 anos e cumprira dois mandatos como deputado federal. Antes, havia sido o vereador mais votado do Rio, depois de lançado na política, com pouco mais de 20 anos, como subprefeito de parte da zona oeste (Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Recreio dos Bandeirantes). Em 2006, tentou trocar a Câmara dos Deputados pelo governo do Estado pelo PSDB, mas obteve apenas 5% dos votos. Apoiou, no segundo turno, o homem que seria figura-chave  na sua trajetória dali em diante: Sérgio Cabral Filho.

No ano seguinte, Paes virou secretário de Esportes e Turismo do novo governo e se filiou ao então PMDB. Pelo partido, seria eleito prefeito em 2008 – em um segundo turno apertado, no qual venceu Fernando Gabeira (PV) por 50,8% a 49,1%. Com Cabral, atuaria em parceria durante a era dos grandes eventos que prometiam tirar o  Rio de Janeiro da decadência. Reeleito com 62% no primeiro turno de 2012, o prefeito viu as coisas piorarem a partir de 2016. Foi quando seu então partido viveu uma hecatombe no Rio após os escândalos de corrupção envolvendo Cabral virem à tona.

Havia a expectativa de que o discurso que associa Paes a Cabral voltasse a ser forte neste ano. A possibilidade cresceu depois do ex e futuro prefeito ter virado réu, dois meses antes da eleição, por suposto caixa 2 da Odebrecht na distante disputa de 2012. Não foi o que aconteceu. Gerou poucas peças de propaganda de candidatos menores, como o bolsonarista Luiz Lima (PSL), e declarações de Crivella no final do segundo turno.

Batizado de “Nervosinho” na célebre planilha da Odebrecht, Paes tem histórico de comportamentos impulsivos. Aconteceram tanto em momentos de estresse - como em reuniões da prefeitura – quanto ao fazer brincadeiras. Algumas delas lhe rendem críticas até hoje. Como o episódio em que comentou, diante de várias pessoas, que uma mulher iria “transar muito” no apartamento cujas chaves acabara de receber das mãos dele. Na campanha deste ano, a candidata Delegada Martha Rocha (PDT) relembrou esse caso para alegar que Paes não respeita as mulheres.

Outro momento, talvez o mais marcante nesse sentido, foi o áudio com uma conversa entre o ex-prefeito e o ex-presidente Lula, quando o petista estava no auge das acusações pela Lava Jato. Em menos de cinco minutos durante a ligação feita para prestar solidariedade ao aliado, Paes chamou a cidade fluminense de Maricá, um reduto do petismo, de “merda de lugar”; brincou que Lula tinha “alma de pobre”; e disse que era “uma foda”, para quem começou o mandato com ele na Presidência e Cabral no governo, ter que lidar com Dilma Rousseff e Luiz Fernando Pezão.

O Paes de 2020 buscou se desvencilhar de qualquer possibilidade de nacionalização da campanha, dizendo sempre que só tinha interesse no Rio. Foi o único dos quatro primeiros colocados a não ter um “padrinho” nacional claro. Perguntado em entrevista ao Estadão se seria um palanque certo para o governador paulista João Doria na eleição presidencial de 2022, o futuro prefeito respondeu com firmeza.

“Imagina... Não sou palanque certo para nada nem para ninguém. Sou palanque certo para o Rio de Janeiro.”

 

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