Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

Eduardo Campos cresce em 2012 para aparecer em 2014

Neto de Arraes e protegido de Lula, governador de Pernambuco já projeta candidatura presidencial com o fortalecimento do PSB

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h04

BRASÍLIA - Governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos fecha 2012 cacifado pelo ótimo desempenho nas eleições municipais. Mesmo batendo de frente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o PT, conseguiu vencer as duas eleições que considerava estratégicas e abriu passagem para que seu nome se consolidasse como uma possibilidade real na corrida pelo Palácio do Planalto em 2014.

Mesmo enfrentando diretamente candidatos petistas, que tiveram apoio declarado de Lula e da presidente Dilma Rousseff, Campos foi bem sucedido ao ganhar a prefeitura do Recife, com Geraldo Júlio (PSB), interrompendo um longo ciclo de poder petista. A outra vitória foi em Belo Horizonte, numa espécie de consórcio político com o senador tucano Aécio Neves. Ambos bancaram a candidatura à reeleição do prefeito Marcio Lacerda (PSB) contra Patrus Ananias (PT) e foram bem sucedidos.

As duas vitórias deram a Campos a possibilidade de transitar entre a base governista e a oposição. Se opera politicamente em Minas ao lado de Aécio e no Paraná ao lado do governador Beto Richa, também do PSDB, preserva sua posição de integrante da base do governo Dilma. Tem, inclusive, cota clara no primeiro escalão, indicando Fernando Bezerra Coelho como ministro da Integração Nacional.

A questão é como dar esse salto passando de líder regional para um nome nacional. Campos admite lançar-se à disputa em 2014, nem que seja para não vencer, dizem seus amigos. É a estratégia mais curta para se tornar um nome conhecido para que possa concorrer em pé de igualdade com os outros no futuro.

Viagens e comícios pouco ajudam, calcula. O que vale mesmo é a presença na TV no horário eleitoral. O exemplo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, derrotado três vezes antes de vencer a disputa em 2002, é claro. De tanto que apareceria nas propagandas eleitorais ficou um rosto conhecido. "Um comício atinge umas 3 mil pessoas. A exposição na mídia nas inserções do Jornal Nacional chegam a milhares e milhares de casas", diz Campos.

O ex-ministro Ciro Gomes, colega de PSB, é outro que se tornou conhecido porque apareceu na propaganda eleitoral em duas campanhas para a Presidência. Campos diz que Ciro é mais conhecido que Aécio, provável candidato à Presidência pelo PSDB - o senador tucano nunca se expôs na mídia em campanha presidencial.

Neto e herdeiro político do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-2005), Campos só veio a conhecer o avô aos nove anos de idade, quando foi levado pelos pais Maximiano Campos e Ana Arraes a uma viagem além-mar, em 1974. Arraes, deposto e preso pelo golpe de 1964, era um dos principais opositores da ditadura militar. Se exilara na Argélia desde 1965 e lá ficaria até 1979, quando foi anistiado e pôde voltar ao Brasil.

Dom Quixote. A exemplo do xará Miguel de Cervantes, que em Dom Quixote conta as histórias do período em que foi prisioneiro em Argel, até a fuga para a Europa, Arraes gastava noites e noites falando de sua passagem pela capital argelina, o golpe sofrido pelo presidente Ben Bella (1918-2012), a guinada dos governos africanos para a esquerda sob influência da União Soviética, os longos 13 anos do governo de Houari Boumédiène (1932-1978), que nacionalizou empresas, principalmente as petrolíferas francesas.

Campos, então com 14 anos, era o maior ouvinte de tudo o que Arraes contava. Grudou-se no avô, perguntava, dava opinião, rebatia, complementava. Arraes comentou à época que via naquele garoto grandes chances de vir a se tornar um político.

Manteve-o por perto. Em 1985 o neto foi eleito presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco. Em 1986, Arraes candidatou-se ao governo e fez dele o dono de sua agenda. Eleito, Arraes chamou o neto para a sua chefia de gabinete. Campos estava então com 21 anos.

Na eleição de 1990, Campos foi eleito deputado estadual e o avô foi sucedido por Joaquim Francisco (PFL). Na Assembleia Legislativa, assumiu a liderança da oposição. Em 1992, mesmo desaconselhado pelo avô, candidatou-se à prefeitura do Recife. Acabou a eleição em 4.º lugar.

Ao ver o neto triste, Arraes o chamou: "Dudu, política é assim mesmo. Você vai perder e vai vencer. Acho que vai vencer mais do que perder. Pode chegar a deputado, senador, governador e até a presidente. Mas, convenhamos, você precisa melhorar, precisa se tornar mais conhecido, porque ainda é muito ruim de voto".

A decisão de se lançar à Presidência em 2014 só não foi fechada ainda, de acordo com amigos, porque ele deve favores ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E Lula pode não concordar com um concorrente para sua afilhada Dilma Rousseff. Esse favor ocorreu porque foi Lula quem abriu um lugar no Ministério para o presidente do PSB logo depois de a Justiça o inocentar por envolvimento no Escândalo dos Precatórios, que veio à tona em 1996.

Então secretário da Fazenda de mais um governo de Miguel Arraes (1995-1999), ele usou para outros fins títulos emitidos exclusivamente para pagar precatórios - dívidas judiciais -, o que é contra a lei. O mesmo expediente foi usado por Paulo Maluf e Celso Pitta na Prefeitura de São Paulo. Acabou alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional. Em 2004, foi nomeado por Lula para Ministério da Ciência e Tecnologia, tão logo resolveu seus problemas com a Justiça.

Retribuição. Um ano depois, seria a vez de Lula precisar dos favores de Campos. Depois da descoberta do mensalão, surgiu o escândalo do "mensalinho", quando o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), foi acusado de cobrar propina para que empresários pudessem instalar restaurantes no Legislativo. Severino renunciou para fugir da cassação.

A renúncia abriu a possibilidade de a oposição ocupar o comando da Câmara e dar sequência a pedidos de impeachment de Lula por causa do mensalão. Lula teve de reagir. Para tanto, recorreu a Campos e Aldo Rebelo (PC do B-SP), que era ministro das Relações Institucionais. Devolveu os dois à Câmara em 2005 - ambos tinham mandato de deputado federal. Rebelo virou então candidato do governo contra os opositores e Campos ficou encarregado de fazer as articulações políticas, visto que o PT estava enfraquecido.

Aldo venceu a eleição no segundo turno, por uma diferença de 15 votos, depois de o governo liberar mais de R$ 1,5 bilhão em emendas parlamentares. No primeiro turno, houve empate: 182 votos para cada um. Eleito presidente da Câmara, Aldo jamais deu seguimento aos pedidos de impeachment. E Campos pagava, ali, parte da dívida com Lula.

Hora extra. Cármen Lúcia, do TSE, decide esta semana se convoca sessões extras para julgar recursos referentes às eleições, que se acumulam na corte

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