Economia brasileira está 'quase derretendo', diz Armínio Fraga

Responsável pelo programa econômico de Aécio Neves (PSDB), Armínio Fraga fez análise pessimista sobre situação econômica do País durante participação por vídeo em seminário realizado em Washington

Claudia Trevisan, correspondente, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2014 | 12h33

Washongton - Responsável por assessorar o programa econômico de Aécio Neves (PSDB), o economista Armínio Fraga disse nesta sexta-feira, 10, que faria um alinhamento "suave" da política fiscal em um período de dois a três anos. Segundo ele, há "muita gordura para cortar", o que permitira a manutenção dos programas sociais. Na lista do que pode ser eliminado estão subsídios setoriais concedidos pela administração Dilma Rousseff.

Na avaliação de Fraga, a economia brasileira está "quase derretendo", com um crescimento próximo de zero. Em participação por vídeo em seminário realizado em Washington, o economista criticou intervenções do governo para controlar preços administrados e a taxa de câmbio, defendeu aproximação com os Estados Unidos e distanciamento dos governos bolivarianos, defendeu maior abertura do País ao exterior e propôs critérios mais estritos para concessão de empréstimos subsidiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

"Nós vimos esse filme antes. Essas coisas funcionam por algum tempo, mas depois voltam para assombrá-lo", afirmou, em relação às intervenções governamentais na economia para controlar preços e câmbio.

Fraga afirmou que o País enfrenta dificuldades para mobilizar capital para investimentos, o que atribuiu ao excesso de dirigismo e ao abandono do modelo de agências regulatórias implantado na gestão de Fernando Henrique Cardoso. "O resultado é que o investimento agregado continua a cair, apesar de um grande número de programas e subsídios do governo. O fato básico é que o investimento está em 16,5% do PIB, o mais baixo patamar em um longo período."

Ex-presidente do Banco Central, Fraga refutou o argumento do governo de que o Brasil sofre os efeitos dos ventos adversos da economia global. O ritmo de expansão do País tem ficado em dois pontos percentuais abaixo do registrado na América Latina, mesmo quando são incluídos Argentina e Venezuela, afirmou. E no mundo, há economias crescendo a zero e outras a 7%. "E nós estamos em zero." Apesar de ter recuado, o preço das commodities continua elevado, em patamar superior ao registrado há seis anos, completou.

O índice de inflação -que está em 6,75% ao ano- não reflete a situação real, ressaltou, em razão da contenção de preços administrados. "O governo está segurando alguns preços, incluindo o preço de combustíveis, o que é um crime ambiental." O indicador também é afetado pela "pesada intervenção" para evitar que a moeda se deprecie em relação ao dólar e encareça o preço dos produtos importados, observou.

Em sua avaliação, a política oficial para combater a inflação é "esquizofrênica". Enquanto o Banco Central aperta a política monetária com a elevação dos juros, o Tesouro e os bancos oficiais injetam recursos na economia, em uma tentativa de estimular a produção. 

Fraga disse que fazia sentido ter uma política anticíclica em 2009, mas foi um erro estendê-la. "Temos políticas fiscais expansionistas e nosso déficit fiscal está crescendo. Há muito a ser feito para colocar a casa em ordem."

O papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) será revisto em um eventual governo tucano, afirmou Fraga. O economista defendeu critérios mais estritos e transparentes para concessão de empréstimos subsidiados pela instituição. Fraga ressaltou que o Tesouro transferiu o equivalente a 10% do PIB ao BNDES para financiar créditos subsidiados, muitos dos quais foram para empresas que não precisavam do benefício, como a Petrobras e grandes companhias privadas.

A injeção de recursos do banco estatal foi uma forma de tentar estimular a economia e setores industriais, mas o esforço fracassou, opinou Fraga. Segundo ele, isso fica evidente na queda de 16% para 13% da participação da indústria na composição do PIB. Segundo ele, os empréstimos do BNDES foram a munição da qual o governo lançou mão por ter sido incapaz de impulsionar a economia com baixa taxa de juros, construção de infraestrutura e sistema tributário "decente".

"O BNDES tem um papel importante a desempenhar em infraestrutura e outras áreas, mas deve haver critérios estritos", disse Armínio, defendendo que os recursos estejam especificados no Orçamento. "Deve haver critérios estritos, claros e transparentes, que possam ser analisados e avaliados. Nada disse ocorre hoje."

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