WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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‘É um equívoco se aproximar de Bolsonaro’, diz ex-ministro de FHC

Jurista José Gregori chefiou pasta da Justiça e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos no governo Fernando Henrique Cardoso

Entrevista com

José Gregori, jurista

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2018 | 05h00

Ministro da Justiça e titular da Secretaria Nacional de Direitos Humanos no governo Fernando Henrique Cardoso, o jurista José Gregori, um dos fundadores do PSDB, disse ao Estado que considera um equívoco a aproximação de alas do partido com Jair Bolsonaro, presidenciável do PSL.

Uma ala do PSDB defende o apoio a Bolsonaro caso Alckmin não vá ao 2º turno. Como avalia?

Isso é um equívoco. Minha posição é diametralmente oposta. O grande sucesso do PSDB e sua justificativa histórica foi sua trajetória de trabalhar pela desradicalização do Brasil. Fernando Henrique sempre foi um moderador, um homem do diálogo. Enquanto não se fecham as urnas, é precipitação. O resultado da eleição está aberto. O PSDB deve mostrar a vantagem da via que oferece ao povo, que é o Geraldo Alckmin. 

O PSDB e Bolsonaro estão em campos opostos?

Houve um avanço nos direitos humanos no País. Isso foi feito por gente que pensa, age, acredita e sonha de maneira diferente do Bolsonaro. A mensagem que justifica o aparecimento do PSDB é ter conseguido a manutenção de uma democracia que não se ajusta à concepção de democracia que Bolsonaro tem. 

Em um eventual 2º turno sem Alckmin, o que falaria mais alto no partido: o antipetismo ou a rejeição a Bolsonaro?

Não devemos antecipar etapas. Essa é uma eleição de movimentos. O que me preocupa na polarização é que são dois movimentos que se hostilizam de uma forma que atravanca o desenvolvimento.

Existem mais pontos em comum entre tucanos e petistas do que entre tucanos e o candidato do PSL à Presidência?

Desde o momento que se soube da existência do Bolsonaro, ficou claro que ele é contra a nossa visão de democracia.

Como avalia o atual momento do PSDB? Seria a hora de fazer uma autocrítica? 

Essa autocrítica foi feita pelo Tasso (Jereissati) e pelo Fernando Henrique. O PSDB pode ter todos os defeitos, mas não tapa o sol com a peneira. Se a postura ética do partido tivesse sido completamente diferente dos demais, a situação seria muito mais confortável. 

A divergência entre PT e PSDB é irreconciliável?

Do ponto de vista do meu setor (direitos humanos) sempre houve convivência. Chego a admitir que ninguém teve tanta força no PT e PSDB quanto Dom Paulo Evaristo Arns, que tinha amigos petistas e tucanos. A juventude precisa de um País desatravancado desse tipo de polarização. Nesse sentido, o PSDB sempre esteve aberto para conversar. 

Há uma geração de tucanos que sustenta um discurso mais conservador do que o PSDB de sua fundação, como o João Doria. O partido mudou de perfil?

Talvez eu tenha de fazer uma autocrítica antes de avaliar o comportamento deles. Talvez eu não tenha sido suficientemente competente ou veemente em mostrar a importância dos direitos dos humanos e como ela deveria ser uma das colunas mestras do PSDB. Mas a vida é dinâmica e as gerações tem as suas especificidades. A maneira como eles enxergam a visão do PSDB pode não coincidir com a minha, mas a essência, se eles quiserem falar em nome do PSDB, é a de Montoro, Mário Covas, FHC, José Serra, Paulo Renato. 

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