'É conversa de ladino para bobo'

Juiz que prendeu Cachoeira lançou dúvida sobre repressão ao crime em GO

RICARDO BRITO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h08

Na decisão que levou à prisão o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima lançou dúvidas sobre a repressão feita pela polícia estadual dogovernador tucano Marconi Perillo às atividades ilegais de Cachoeira. "Tenho certeza de que, após a deflagração desta operação, muitos dirão que o jogo ilegal era reprimido no Goiás. Não é verdade", disse o juiz. "É a famosa conversa de ladino para bobo. Tínhamos 'pseudoatuações' e simulação de persecução penal, para conferir a impressão de enfrentamento ao crime", afirmou, no despacho de 23 de fevereiro.

O magistrado disse ser "assustadores" os tentáculos da organização no Estado. Pelas contas do juiz, em seis meses de interceptações telefônicas autorizadas por ele, 43 agentes públicos federais, estaduais e municipais foram corrompidos no esquema do contraventor. Entre eles, 30 policiais militares, 6 delegados da polícia civil e 2 da polícia federal. Na decisão, Moreira Lima ressaltou que é muito mais perigosa uma organização criminosa que conta com essa cooptação de agentes do Estado "que qualquer bando de traficantes armados ou assaltantes de bancos", escreveu. "Sem exagero, as provas indicam que Cachoeira pode ser considerado o maior corruptor de agentes públicos de segurança de toda a história de Goiás", disse.

Como um rei. Nas 231 páginas da decisão, ele ainda se mostrou impressionado com o fato de o grupo atuar por 17 anos no entorno do Distrito Federal, como se Cachoeira fosse rei. "Não tenho notícia de organização criminosa com atuação há mais tempo no Brasil, sempre liderada pela mesma pessoa, com longevidade própria de uma monarquia." O juiz afirmou que, durante as investigações, foi descoberta a influência de Cachoeira na nomeação de dezenas de pessoas para ocupar funções públicas em Goiás, além de informantes no Judiciário. E que ele foge do estereótipo do contraventor, pois não mora na periferia, nem vive na clandestinidade. "Pelo contrário, é estreita a amizade com policiais, políticos, jornalistas e empresários."

Moreira Lima chega a elogiar o que considera "capacidade multidisciplinar" de Cachoeira: "(Ele) comanda pessoalmente todas as questões relacionadas ao jogo e ao pagamento de propina; é responsável também pelas ordens pertinentes à atividade financeira do grupo", afirmou. "É de tirar o chapéu." O juiz admitiu que o melhor seria deixá-lo numa penitenciária federal, pois "nem os olhos mais ingênuos poderão crer que o sistema penitenciário goiano poderá neutralizar suas ações". Ontem, porém, Cachoeira foi transferido de Mossoró (RN) para o complexo penitenciário da Papuda, em Brasília, com direito à TV e visita íntima.

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